Los Angeles, 27 (AE) - Por pouco, Beleza Americana, filme de estréia do diretor teatral inglês Sam Mendes, não fez história na 72ª edição da festa de entrega do Oscar, realizada no domingo à noite, no Shrine Auditorium, centro de Los Angeles. Faltou Annette Bening vencer o prêmio de atriz para essa produção do novo estúdio de Steven Spielberg, o DreamWorks, que ainda engatinha no cenário das major de Hollywood, conquistar os chamados "big five" e igualar- se aos filmes Aconteceu Naquela Noite (1934); Um Estranho no Ninho (75) e O Silêncio dos Inocentes (91).
O quinto prêmio para Beleza Americana, que venceu os Oscars de melhor filme, diretor, ator (Kevin Spacey) e roteiro original (escrito por Alan Ball), foi para a fotografia de Conrad L. Hall, veterano de outros nove Oscars, mas vencedor anteriormente apenas por Butch Cassidy & Sundance Kid, em 1969.
Annette, que estava na data limite da gravidez de seu quarto filho com o ator e diretor Warren Beatty e com dois médicos de prontidão para qualquer emergência ou para as suas primeiras contrações, perdeu o prêmio de atriz para Hilary Swank, de 25 anos. Em Meninos não Choram, uma produção-guerrilha da diretora estreante Kimberly Pierce, que lidou com um minguado orçamento de US$ 2 milhões, Hilary teve a atuação mais contundente do ano: como Teena Brandon, uma garota com crise de identidade sexual que se faz passar por homem até encontrar o final trágico na mão do ex de uma das garotas que ela seduz numa pequena cidade do Nebraska.
Também novata na festa do Oscar era Angelina Jolie, filha do ator Jon Voight, que venceu o prêmio de coadjuvante pela psicótica que interpreta na produção Garota, Interrompida. Michael Caine, numa das categorias mais concorridas da noite, derrotou os favoritos Tom Cruise (por Magnolia) e o garotinho Haley Joel Osment (de O Sexto Sentido), e conquistou sua segunda estatueta coadjuvante (a primeira foi por Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, em 86). O veterano ator inglês venceu pelo drama Regras da Vida, do diretor sueco Lasse Halstr”m, que venceria mais um Oscar naquela noite: o de melhor roteiro adaptado. O escritor John Irving, que adaptou o próprio livro, recebeu o prêmio e promete agora usá-lo para aumentar ainda mais a sua rivalidade com o escritor Tom Wolfe, com o qual vive uma verdadeira lavagem de roupa suja no circuito intelectual de Nova York.
Na parte técnica, Matrix, ficção científica dos irmãos Larry e Andy Wachowski, cult movie nos EUA e França, levou quatro Oscars - som, efeitos sonoros, efeitos especiais e montagem -, esmagando as pretensões de George Lucas e seu mal recebido (porém hit de bilheteria) Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma. Topsy-Turvy, o musical do diretor inglês Mike Leigh (de Segredos e Mentiras) sobre os bastidores da montagem da ópera O Mikado, dos compositores Gilbert & Sullivan, surpreendeu ao ganhar duas estatuetas: figurino e maquiagem.
Em sua sétima e mais inspirada participação no Oscar como mestre- de-cerimônias, o ator e comediante Billy Crystal preparou várias gags de abertura para o evento. Uma delas seria entrar no Shrine Auditorium no trator que Richard Farnsworth (colaborador de John Ford, indicado na categoria de melhor ator) atravessa os EUA no filme História Verdadeira, de David Lynch, que breve estréia no Brasil. Outra idéia seria pular nas cadeiras vermelhas do teatro, imitando a macaquice de Roberto Benigni, no ano passado. Crystal considerou ainda surgir de uma lixeira gigante, com as cinco caixas carregando 55 Oscars que desapareceram na semana passada, tornando- se o último episódio de um grande mau-olhado que se abateu sobre a trajetória da produção deste Oscar.
Crystal, no entanto, surgiu numa colagem com cenas de clássicos de Hollywood dividindo a cena com James Dean, Dustin Hoffman, Kirk Douglas, Marlon Brando e Gene Hackman. O segmento, dirigido por Troy Miller, teve participações especiais de Kevin Spacey (como Norman Bates, o serial killer de Psicose) e o escritor Stephen King, quase sendo atropelado pelo carro descontrolado que Hackman dirigia em Operação França. O apresentador terminou sendo despejado, pela bicicleta de E.T. - O Extraterrestre, num gueto escuro, onde encontrou uma das gangues de Amor, Sublime Amor (West Side Story).
Já no palco do Shrine, Crystal abriu a apresentação oficial fazendo um medley com músicas famosas e adequando suas letras para apresentar os cinco indicados para a melhor filme - além de Beleza Americana, concorriam O Informante, À Espera de um Milagre, O Sexto Sentido e Regras da Vida. Produzida pelo casal Lili Fini e Richard Zanuck, que venceram um Oscar em 89 por Conduzindo Miss Daisy, a cerimônia do Oscar ganhou um maquiagem moderna, embora não tenha conseguido diminuir de tamanho, alcançando quase quatro horas de duração.
As vinhetas foram remodeladas; ex-vencedores do prêmio entravam no palco com suas antigas noites de glória sendo reprisadas num telão; uma nova geração de atores tomou a apresentação do prêmio (apesar de só Edward Norton e Ashley Judd terem aproveitado a chance). O ator Peter Coyote, protagonista de A Grande Arte, de Walter Salles, servia de narrador da cerimônia, instalado atrás de um balcão enorme na boca de entrada e saída dos apresentadores e vencedores, dando um breve instante de peep show para o público espiar o que se passava nos bastidores, como foi o caso de Hilary Swank pedindo para Gwyneth Paltrow beliscá-la no braço para ter certeza de que havia mesmo ganho o prêmio.
Mas a maior inovação mesmo foi o lado musical da noite, deixado a cargo de Burt Bacharach que, por sua vez, se associou com o produtor Don Was. Eles criaram uma música moderna, ousada, misturando melodias clássicas com uma batida pop, se inclinando mais para o lado de Beck do que de Henry Mancini. Winona Ryder surgiu ao som quase irreconhecível da trilha sonora do Drácula de Bram Stoker com uma batida tecno.
Os produtores do prêmio deixaram transparecer ainda quanto Hollywood ainda continua dependente da mão-de-obra estrangeira. Em um bloco inteiro, os apresentadores tiveram sotaques variados: do latino de Salma Hayek, passando pelos erres arrastados do austríaco de Arnold Schwarzenegger e chegando ao asiático de Chow Yun-Fat.
O diretor polonês Andrezj Wajda, que recebeu um Oscar honorário por sua carreira de 44 filmes, discursou em sua língua materna, enquanto o espanhol Pedro Almodóvar, que ganhou o seu tão almejado - e merecido prêmio de filme estrangeiro - Oscar por Tudo sobre Minha Mãe, desandou na receita de seu discurso desarticulado, embora esse tenha recuperado o rebolado nos bastidores ao falar com os jornalistas. "Perto de Almodóvar, Robert Benigni parece um professor de inglês", contra-atacou o afiado Crystal.

mockup