"Beleza Americana" é a crítica assimilável, reformista no fundo
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domingo, 26 de março de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 27 (AE) - Deu o que tinha de dar e "Beleza Americana" sai como o grande premiado do Oscar 2000. As cinco estatuetas (melhor filme, ator, diretor, roteiro original e fotografia) recebidas afinam com o fato de ser esse o mais completo longa-metragem da safra norte-americana, em que pesem suas óbvias limitações. O filme de Sam Mendes só não fechou o "big five", as cinco estatuetas mais importantes, porque Hilary Swank, de "Meninos não Choram", destronou a favorita Annette Benning.
Aliás, justíssima premiação para Hilary, que interpreta uma garota com problemas de identificação sexual em "Meninos não Choram", um filme corajoso, de cenas duras, de certa forma destoante do tom melodramático, edulcorado, que prevaleceu este ano. O lacrimoso "Regras da Vida" ficou com roteiro adaptado e coadjuvante, para Michael Caine. Está de bom tamanho e a estatueta para o veterano ator inglês já era esperada. Como também o era para Angelina Jolie, que faz jus ao nome e levou o Oscar de coadjuvante por sua atuação em "Garota Interrompida". O filme não é lá essas coisas - uma versão conservadora e feminista (ou feminina) de "O Estranho no Ninho".
Talvez a concentração excessiva de prêmios de "Beleza Americana", em detrimento de "O Informante", que sai de mãos abanando, tenha provocado um certo desequilíbrio de resultado. "O Informante" é muito bem dirigido por Michael Mann (atente para as sequências iniciais, criadoras de um clima tenso que irá impregnar o filme inteiro), e a atuação de Russell Crowe parecia densa o suficiente para merecer uma lembrança. Acontece que, no quesito ator, Spacey era mesmo imbatível - é intérprete de nuances, interiorizado, discreto, qualidades raras hoje em dia. Além disso, em nove entre dez casos, quem ganha diretor, ganha filme. Na prática, são prêmios casados, o que excluía Mann.
Daí a lavada quase absoluta de "Beleza Americana". Chato para "O Informante", filme digno, mas sob medida para "O Sexto Sentido", híbrido de "Ghost" e "O Iluminado", um grande sucesso de público, mas convencional demais para ser levado a sério. E também para "À Espera de um Milagre", libelo contra a pena de morte com toques de realismo mágico. No resto da premiação, sentiu-se a ausência de "Hurricane" - Furacão, que poderia ter rendido um prêmio politicamente correto para Denzel Washington, o que não aconteceu.
A surpresa, se o termo cabe, foi a derrota de "Buena Vista Social Club" para "One Day in September", documentário sobre o atentato aos atletas israelenses na Olimpíada de Munique. O tema, e o fato de por trás do filme haver o tarimbado produtor Arthur Cohn, faziam de Buena Vista mais um azarão do que propriamente um favorito. Favorito mesmo e confirmado pelos fatos, era Pedro Almodóvar, que levou para casa o Oscar de melhor filme estrangeiro por seu "Tudo sobre Minha Mãe".
"Beleza Americana", que continua em cartaz na cidade, pretende-se uma visão crítica do modo americano de viver. No caso, a existência suburbana, com Kevin Spacey casado com uma mulher ultracompetitiva (Annette Bening) e pai de uma adolescente convenientemente entediada. A vida de Spacey muda quando ele conhece uma ninfeta, amiga de sua filha, apaixona-se por ela e começa a pôr em dúvida todos os valores que o estruturavam até então. Abandona o emprego, passa a fumar maconha, levanta pesos para fortalecer os músculos. Quarentão, volta para uma doce e irresponsável adolescência, e paga seu preço por isso. É como se o filme denunciasse, por um lado, a impostura do sonho americano e, por outro, flertasse com a tendência regressiva da vida moderna, que idealiza a infância e a adolescência prolongada, quando não eternas.
Para todos os efeitos, trata-se de um modo de pensar hostil ao mundo adulto. No fundo, critica o american way of life
mas aceita, com prazer, algumas de suas consequências. O resultado do filme é tributário desse compromisso assumido. Por isso a crítica não vai até o fim. Por isso o personagem detém-se no momento mais radical da história. Por isso, e apesar do seu aspecto sedutor, nos deixa meio insatisfeitos no final. E por tudo isso, finalmente, pôde passar pelo crivo, ser reconhecido e agraciado por uma instituição conservadora como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
"Beleza Americana" é a crítica assimilável, reformista no fundo. Por isso palatável ao establishment do cinema industrial, que, por sua vez, emerge da elite econômica do país. Premiá-lo não significa nenhum desvio esquerdizante da Academia. Ao contrário. Muda para não mudar, como aquele personagem de Lampedusa em "O Leopardo".


