Beira-Mar tem um império na Colômbia
Negro de andar tranquilo e fala mansa, ele bem que passava por natural de um dos povoados ribeirinhos do Guaviare, na Amazônia colombiana, não muito longe da fronteira com o Brasil. Só o sotaque traía dom Alvaro, como ele ficou conhecido desde que desembarcou em La Reforma, entre o fim de 1999 e o começo de 2000. Ninguém se ocupou de guardar a data, de tão acostumada que ficou a gente da área com o recém-chegado. Tanto mais porque seu negócio é o mesmo que colocou o Guaviare no mapa-múndi do narcotráfico: a cocaína.
Dom Alvaro é o brasileiro Luiz Fernando da Costa, conhecido por aqui como Fernandinho Beira-Mar. A Justiça e a polícia do Rio estimam que sua rede no Brasil distribui 75% da cocaína vendida no eixo Rio-São Paulo-Minas, o filé mignon do mercado nacional. Droga com grau de pureza tão superior ao da concorrência que custa o dobro. E é vendida pelo Comando Vermelho com grife: as siglas CV e Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, maior guerrilha de esquerda do País).
No total, ele comprou duas toneladas de cocaína, por cerca de US$ 4 milhões; na revenda para o mercado brasileiro, arrecadou US$ 6,5 milhões; o lucro líquido foi de US$ 1,5 milhão, descontados cerca de US$ 1 milhão gastos com despesas das viagens, subornos e o imposto pago às Farc. Pelo menos uma vez, dom Alvaro pagou com a outra moeda forte da região: armas. Foram 500 fuzis, 2 mil pistolas, carregadores e munição.
A história e as dimensões do pequeno império montado por dom Alvaro na selva colombiana, bem como a cocaína com grife Farc, vieram à tona na esteira da Operação Gato Negro, a maior operação militar dos últimos tempos na Colômbia. São 3,5 mil soldados caçando, desde meados de fevereiro, Beira-Mar e o guerrilheiro que está sendo apontado como seu parceiro e protetor em uma conexão que já atiça o instinto de cão de caça da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos. Ele é Tomas Molina, o Negro Acacio, comandante da Frente 16 das Farc, que domina as margens do Guaviare.
No primeiro dia da ofensiva, 11 ou 12 de fevereiro, a Força de Deslocamento Rápido desembarcou em Barrancomina e capturou 22 suspeitos, entre eles sete brasileiros. Uma das detidas, Jaqueline Alcântara, atual mulher de Fernandinho, foi liberada um ou dois dias depois pela Justiça. As tropas chegaram a sentir o cheiro de dom Alvaro, baleado dias mais tarde numa fazenda.
Passado um mês de rumores, porém, pairava entre os militares a sensação de dupla frustração. Beira-Mar estaria fugindo rumo à Venezuela. Acacio, o gato preto que deu nome à operação, honrou o apelido e escapou na direção oposta, para Guaviare. Ileso, segundo se sabe.
Mas nem tudo deu errado. As tropas ocuparam o quartel-general do brasileiro, abandonado às pressas uma casinha modesta de madeira, pintada de azul, como a descreveu o enviado do jornal The Washington Times. Lá, o Exército apreendeu o que considera as evidências mais fortes, até hoje, de que as Farc administram no Guaviare o negócio do narcotráfico, comprando cocaína dos laboratórios de refino e revendendo a traficantes que a colocam no mercado internacional, como o brasileiro dom Alvaro e alguns peruanos.
Biografias A parceria entre Fernandinho Beira-Mar e o Negro Acacio foi o encontro da emergência com a ocasião. Os dois regulam de idade, ambos a meio caminho entre os 30 e os 40 anos. É difícil estabelecer exatamente quando se conheceram, mas suas carreiras coincidem tanto quanto as biografias. Em 97, quando acabava de assumir o comando da Frente 16 das Farc, Acacio foi incumbido pelo chefe militar da guerrilha, Jorge Briceño (o Mono Jojoy), de estabelecer canais internacionais para a compra de armas. No mesmo ano, Fernandinho, recém-fugido da prisão no Brasil, se estabelecia no Paraguai, conhecido entreposto de traficantes de armas.





