Beira-Mar 'reina' no presídio federal
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
O traficante carioca Luis Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, estreou, ao melhor estilo 'preso de honra', a Penitenciária Federal de Catanduvas, na madrugada de quarta-feira. Beira-Mar foi o primeiro detento a chegar à penitenciária e permaneceu sozinho as duas primeiras noites de operação da unidade. Com 208 celas monitoradas por 200 câmeras de vídeo, o presídio foi construído pelo governo federal para retirar dos grandes centros do país os líderes do crime organizado.
Uma das primeiras preocupações do traficante ao chegar à penitenciária foi saber quando poderá ter a visita íntima. O comentário é de um policial federal que participou das atividades de transferência do preso
A reportagem da Folha esteve no presídio na noite de quarta-feira. Pelo menos 30 agentes penitenciários do Ministério da Justiça, fortemente armados, permanecem visíveis nas quatro guaritas e portões principais. A iluminação é garantida por aproximadamente 50 postes - quase a metade com quatro lâmpadas.
O carro da reportagem foi cercado pelos funcionários e vistoriado antes de qualquer palavra. ''A gente tem orientação para não conversar, não falamos sobre questões operacionais'', explicou um agente - sem se identificar. A maior parte dos funcionários é jovem, de bom nível sócio-econômico e aparenta entusiasmo com a missão de manter trancafiados os principais criminosos do país. ''Aqui, se o cara caiu, não sai mais. Fomos contratados para isso'', relata outro agente. Armado com um fuzil 56, - ''tem a mesma potência de uma AR-15, usada pelo exército americano'' -, o agente se posiciona atrás de uma viatura e mantém a mira na estrada quando passam veículos.
A tensão no local é quebrada, em alguns momentos, por ruídos corriqueiros da cidade, que começa a 300 metros dali. A pregação em uma igreja Evangélica e as conversas de bar se sobressaem na fria noite do Oeste paranaense.
A chegada do primeiro detento passou desapercebida para boa parte da população. Na manhã de quinta-feira, o agricultor João Gouveia, de 61 anos, subia com a esposa a pequena estrada rural que passa a 100 metros da Penitenciária. Carregando varas de bambu para produção de cestos e balaios, explicou que não tem TV em casa e não sabe quem é Fernandinho Beira-Mar. ''Para mim tanto faz, né, eu nem conheço. Só tem que segurar eles aí dentro, senão, ô doido''. Questionado se concorda com a instalação da unidade, Gouveia responde: ''Olha, aqui a gente não incomoda ninguém, então, se ele também não incomodar, é a conta, né?''.
O diretor da Escola Municipal Tiradentes, Miguel Ide, acredita que a cadeia tem mexido mais com a imaginação dos catanduvenses do que a rotina da cidade. Para ele, a construção do presídio foi bem feita e impede a realização de rebeliões. ''Agora, se vai ser bom de verdade, só o tempo vai dizer. Algumas contrapartidas prometidas para a cidade ainda não foram cumpridas, como a instalação de um Centro Federal de Tecnologia (Cefet)'', reclama.
Um comerciante que prefere não se identificar acredita que a localização do presídio, a menos de 200 km, do Paraguai pode facilitar a fuga de presos para o exterior. ''Já pensou, tiram o preso de lá e pegam um avião numa pista de fazenda. Em menos de meia hora já estão no Paraguai'', calcula.


