Beira-Mar quer trocar informação por pena
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quarta-feira, 25 de abril de 2001
Hugo Marques e Chico Araújo Agência EstadoDe Brasília 
O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, disse aos quatro policiais que o escoltaram no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), no vôo entre Bogotá e Brasília, que ainda tem muita bala na agulha. Ele se referia ao dinheiro e às informações que acumulou em mais de uma década como um dos líderes do tráfico de drogas no Brasil. Ele pretende utilizar estas informações para negociar a redução de pena com a Justiça e sobreviver à troca de comando do tráfico, que começou com sua prisão.
Um dos três advogados que visitaram Beira-Mar na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, Adalberto Lustosa de Matos, contou que o traficante quer trocar as informações por uma redução da pena. Mas nem o advogado do traficante acredita nesta possibilidade, pois ele fugiu de uma unidade prisional de Minas Gerais em 1988.
Antes de buscar uma negociação com a Justiça, Beira-Mar vai tentara revisão de algumas penas com base em supostas testemunhas que teriam prestado informações falsas à Justiça para incriminá-lo. O propósito dele é acertar as contas com a Justiça, disse o advogado. Beira-Mar acredita que possa pagar o que deve à Justiça e à sociedade e continuar gastando o dinheiro obtido com a atividade criminosa. Ele já tem o suficiente para viver, disse Matos. O traficante quer estudar advocacia e viver o resto da vida, segundo o advogado.
A princípio, a maior preocupação de Beira-Mar foi rebater o secretário de Segurança do RJ, Josias Quintal, que revelou ter recebido do traficante uma lista de nomes de pessoas envolvidas com o tráfico, incluindo políticos e policiais. Ele desmente o secretário de Segurança, disse Matos. O Quintal coloca meu cliente numa situação complicada. Beira-Mar sabe que traficantes delatores costumam ser punidos com a morte em alguns presídios brasileiros. Aos policiais, Beira-Mar disse que Quintal quer se eleger deputado com a repercussão da prisão.
Outra preocupação do traficante é não ser levado para Minas Gerais, onde tem mais medo de morrer por ter denunciado policiais supostamente envolvidos com o tráfico. Ele quer ser transferido para o Rio, onde estão seus familiares e o que lhe resta de poder no comando do narcotráfico.
Beira-Mar quer ainda provar que é um bandido feito pela própria fama que conquistou, a de maior responsável pelo comércio de droga. Ele diz por intermédio de seu advogado, que isto não é verdade, mas não fornece os nomes dos supostos chefões do tráfico.
A presença de Beira-Mar no País conseguiu ressuscitar a extinta CPI do Narcotráfico. Parlamentares que integravam a comissão foram à PF tentar negociar novo depoimento do traficante, que desta vez seria na Comissão Antiviolência da Câmara, que não tem poderes de CPI. A Comissão de Direitos Humanos também quer ouvir o traficante.
A presença de Beira-Mar no Brasil expôs ainda mais a disputa do governo do Rio de Janeiro e da Polícia Federal em torno da prisão do traficante, feita pelo Exército da Colômbia. Desmentido com suas listas, Quintal e o governador Garotinho foram alvos de críticas dentro do governo. Oficialmente, no entanto, a secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind, disse apenas que o governo federal busca uma cooperação positiva com as polícias dos Estados.
A PF, que vai instaurar novo inquérito para investigar associação criminosa internacional envolvendo Beira-Mar, não tomou o depoimento do traficante ontem. Reclamando de dores no ombro, atingido por um tiro na primeira investida do Exército colombiano, Beira-Mar foi levado ao Hospital das Forças Armadas (HFA), onde foi examinado pelo diretor, Herbert Cavalcante. Um esquema de segurança, com mais de 100 fuzileiros navais, foi montado para receber o traficante. Ele está preso, sozinho, em uma cela de 12 metros quadrados na PF, sem banheiro.


