Belém, 02 (AE) - Quando a dona-de-casa Nihad Abu Sherer, de 29 anos, engravidou do sétimo filho, em maio, pensou em chamá-lo Muhamad, nome do fundador e principal profeta do islamismo. O garotinho acabou sendo o primeiro bebê a nascer na noite de Natal, (à meia-noite e três minutos), em Belém. Recebeu o nome de Issaa, que significa Jesus, em árabe. Passados oito dias, ele está chamando a atenção dos moradores da periferia e dos campos de refugiados da cidade onde Cristo nasceu.
Mahmud, de 33 anos, o pai do garoto, decidiu chamá-lo Issaa, encorajado pelos familiares, que viram o nascimento do menino como uma benção especial de Deus. As histórias sobre a boa sorte do menino, começaram ainda no hospital.
Minutos antes do parto, Nihad diz ter ouvido uma voz que lhe disse que, apesar de ele ser prematuro, teria muita sorte e seria uma pessoa especial. Depois, as enfermeiras e o medico, Nafez Al Dibs, teriam assegurado que o cordão umbilical do bebê tinha o formato de uma cruz. "Não senti nenhuma dor, foi como um sonho", diz Nihad, que teve todos os filhos de parto normal.
O hospital, que tem como norma dar alta para as pacientes três dias após o parto, liberou Nihad 48 horas depois de ter dado a luz. "Não estava mais sentindo nada", explica ela. Até as 22 horas, Nihad esteve na Praça da Manjedoura, na frente da Igreja da Natividade, acompanhando ao lado do marido e dos irmãos as festividades de Natal. Às 23h30 sentiu-se "esquisita", chegou ao hospital às 23h45 e teve Issaa três minutos após a meia-noite.
A lenda sobre Issaa ganhou força, quando no início da semana, vizinhos que foram visitá-lo, no casebre alugado em que mora com os pais no campo de refugiados de Mohaim El Aze, sentiram que seu rosto "se iluminava" quando sorria. Mahmud, que viu os outros seis filhos crescerem, diz que este bebê é mesmo especial: não chora e apesar de ser tão pequeno, olha para as pessoas como "se as entendesse".
A reportagem da Agência Estado esteve na casa do avô de Issaa, na região de Shara El Karfafe. O bebê, vestido com roupas amarelas e uma boina da mesma cor, permaneceu quieto, no colo da mãe, durante toda a entrevista, que durou cerca de uma hora e meia. Não chorou, permaneceu de olhos abertos e, aparentemente, comportou-se como qualquer bebê.
Sorteio - Issaa não é um nome incomum na região, uma vez que os árabes respeitam Jesus como um de seus profetas. No entanto, os pais asseguram que Issaa é especial. Para testar a boa sorte do menino, há três dias, eles foram a uma festa em Belém, onde estava sendo sorteado um carro. Mahmud escreveu no cupom o nome de Issaa e ganhou o automóvel (que ainda não foi entregue).
Na noite do ano-novo, dois tios do garoto, Muhamad e Adnan, acompanharam Nihad e Mahmud a uma festa de réveillon no Dália, uma espécie de bar-restaurante, em Belém. Na hora de preencher os cupons para concorrer às passagens, com direito a acompanhante, que estavam sendo sorteadas, todos preencheram o nome de Issaa.
Resultado: o pai e Adnan ganharam passagens para Paris e o tio
Muhamad, para o Egito. "Ninguém pode dizer com certeza que ele é o novo Jesus, mas sem dúvida é um bebê com muita sorte", diz Adnan, que por falar inglês está encarregado de receber os jornalistas que começam a chegar diariamente à casa do pai do avô de Issaa, o ponto de encontro da família.
Pai operário - Mahmud combina com a versão moderna e politizada de José e Maria (que foram personagens de um filme exibido na Praça da Manjedoura, na noite de Ano Novo). Ele trabalha como operário da construção civil, na parte oriental de Jerusalém, onde ganha US$ 400 dólares por mês. Como não tem permissão para trabalhar em Israel (os palestinos precisam de licença para atravessar a fronteira), caminha horas a pé para circundar as montanhas e a barreira do exército.
Mahmud e Nihad são, na verdade, o retrato fiel da maioria dos palestinos. Pobres e sem acesso à educação, passam metade do tempo procurando trabalho e a outra metade ocupados em sub-empregos. Ele não sabe direito o que fazer com o bebê que os vizinhos consideram tão "especial" e atrai o interesse da imprensa internacional. "Só quero que isso tudo ajude meu filho a estudar, ter seguro de saúde e a melhorar de vida", diz o pai de Issaa.
O fato é que nesse início de ano em que Jesus Cristo vinha sendo esperado por centenas de pessoas na Terra Santa, a chegada inesperada de Issaa está agitando a montanhosa periferia de Belém. "Quem sabe ele não será o novo salvador?", questiona-se Adnan, o tio. "Mal temos o que comer, mas nossa sorte está mudando com Issaa", completa. "Quem sabe ele não trará a mesma sorte para todo o mundo?" pergunta.