Cerca de dois mil brasileiros participaram ontem, em Roma, do ritual de beatificação do primeiro religioso nascido no Brasil, o frei franciscano Antonio Galvão (1739-1822). A cerimônia também beatificou outros quatro religiosos - da Espanha, da Itália e da França -, mas a maioria dos fiéis presentes à praça São Pedro era brasileira.
Eles receberam um cumprimento do papa João Paulo 2º. ‘‘Quero que vocês voltem para casa carregando uma lembrança, nesse dia de alegria: o papa sempre os acompanha nas vossas preces e pede a Deus e a Nossa Senhora Aparecida paz e a concórdia para todas as famílias brasileiras. O papa abençoou a menina Daniela Cristina da Silva, 12, que recebeu o suposto milagre de cura que justificou a beatificação de frei Galvão. Aos 4 anos, ela chegou a ficar em coma e a ter uma parada cardíaca, por causa de uma hepatite aguda do tipo A.
Na época, os médicos deram o caso como perdido. A mãe, Jacira Francisco, fez a novena de frei Galvão, ministrou as famosas ‘‘pílulas’’ do mosteiro da Luz de São Paulo e passou água benta na cabeça da filha. Duas semanas mais tarde, Daniela já estava lúcida e falava, segundo o relato. As ‘‘pílulas’’ são pedaços de papel com orações. ‘‘Encontrar o papa foi uma sensação muito forte. Estou muito contente por estar aqui, viva e presenciar esse momento , disse a menina, após entregar ao papa uma caixa com pedras brasileiras.
Para dom Lucas Moreira Neves, ex-presidente da CNBB e atual prefeito da Santa Sé para a Congregação dos Bispos, ‘‘a festa foi brasileira durante o ritual. ‘‘Para a igreja do Brasil é um momento histórico: a primeira vez que um beato brasileiro é elevado à honra dos altares, disse. Dom Lucas, que tomou posse na diocese de Sabina sábado, desobedeceu ao protocolo e desceu as escadas da catedral de São Pedro para abraçar os fiéis.
Entre os representantes da Igreja Católica do Brasil estavam o presidente da CNBB, dom Jayme Chemello; o arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes de Araújo, e o arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, que descreveu ao papa os dados biográficos de frei Galvão e pediu a sua beatificação.
A seu lado estava a irmã Célia Cadorin, 70, a postulante da causa de frei Galvão (quem encaminha e acompanha o processo). ‘‘Para conseguir que uma causa seja aceita é preciso cabeça, coração e persistência. É a realização de um sonho pelo qual venho lutando desde 1990, quando dom Paulo Evaristo Arns me indicou para a tarefa.
Ela também foi a postulante da beatificação de madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, italiana que viveu em Santa Catarina na primeira metade deste século. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi representado pelo secretário Nacional dos Direitos Humanos, José Gregori. A beatificação é um passo anterior à canonização, quando a pessoa é considerada santa.

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