Foz do Iguaçu, PR, 03 (AE) - Por determinação do Banco Central (BC), agências bancárias brasileiras estabelecidas no Paraguai estão impedidas desde hoje de remeter para o Brasil depósitos acima de R$ 10 mil em espécie. Os depósitos em cheques acima deste valor podem ser feitos, desde que na emissão sejam identificados o depositante, a origem do dinheiro e sua destinação. O volume maior de negócios, no entanto, é feito em dinheiro - tanto real quanto dólar.
A medida é resultado das suspeitas de uso de contas CC5 para lavagem de dinheiro apontadas pela CPI do Narcotráfico e por dois procuradores da República no Paraná. Por precaução, o BC revogou a autorização especial concedida em 1996 para algumas regiões de fronteira do País.
Em Foz do Iguaçu, cinco bancos tiveram de suspender as transações com suas agências em Ciudad del Este. A decisão deve repercutir negativamente no comércio de importados, que todos os anos recebe milhares de sacoleiros brasileiros. São essas agências - do Banco do Brasil, Banco do Estado do Paraná (Banestado), Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), Banco Rural e Banco Araucária - que repatriavam boa parte dos milhões de dólares ali deixados pelos sacoleiros.
Segundo o Banco Central do Paraguai, o comércio de Ciudad del Este movimentou US$ 2,5 bilhões em 1998. Ali, 95% dos clientes são brasileiros. A moeda corrente é o dólar, cuja cotação subiu 5% só no fim de semana por causa do anúncio da medida. Já o real passou a ser recusado em todas as lojas paraguaias. Os comerciantes alegam que não conseguem convertê-lo em dólar ou guarani (a moeda do país), já que os bancos não mais aceitam a moeda brasileira.
As suspeitas de lavagem de dinheiro com contas CC-5 (de não residentes no Brasil) chegaram à CPI do Narcotráfico por meio do procurador da República Celso Antônio Três, recentemente transferido de Cascavel (PR) para o Rio Grande do Sul. Ele concluiu que só nos últimos cinco anos US$ 7,7 bilhões ilegais foram lavados na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este por meio de contas frias e outros negócios ilícitos.
Já o procurador da República em Foz, Néviton Guedes, aponta a existência de 200 inquéritos por evasão de divisas. Para ele, grande parte dos cerca de 2 mil envolvidos é de "laranjas" - pessoas que alugam o nome para abertura de contas CC5 frias e outras transações ilegais. Além desses, a Polícia Federal prendeu em 1999 cerca de 20 pessoas na Ponte da Amizade (Brasil-Paraguai) sob acusação de evasão de divisas. Com elas foram apreendidos R$ 3 milhões.
Esse dinheiro estaria sendo levado ao Paraguai para investimento no país ou para voltar ao Brasil por meio dessas transações interbancárias, já que não havia a necessidade da comprovação de origem do dinheiro.