Paris, 13 (AE) - Diversos dirigentes do Banco Central russo são suspeitos de evasão de capitais atingindo somas significativas de algumas centenas de milhões de dólares. Essas suspeitas, nascidas de denúncias do antigo procurador geral Iuri Skouratov, afastado por Boris Yeltsin, estão sendo examinadas através de duas auditorias encomendadas pelo Conselho de Administração do FMI à Price Waterhouse Coopers, cujos resultados finais deverão ser conhecidos nos próximos dias. Elas poderão levar os dirigentes da organização internacional a adiar por uma semana a reunião prevista para amanhã, em Washington, e que deveria avalizar um novo crédito de 4,5 bilhões de dólares à Rússia.
A primeira auditoria envolve as atividades da empresa Fimaco, uma off shore instalada na ilha de Jersey e que administrou 50 bilhões de dólares do Banco Central russo. Já a segunda auditoria investiga a utilização de um crédito precedente do Fundo Monetário Internacional.
As autoridades do BC da Rússia, entre eles, Viktor Guerachtchenko, que presidiu o banco até 1994 e voltou a presidi-lo em 1998, negam qualquer utilização indevida desses fundos. Na verdade, há fortes suspeitas de que muitos milhões de dólares se volatilizaram no período entre 1993-1998.
As autoridades monetárias russas discutiram sigilosamente o problema com o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, durante sua passagem por Moscou no início do mês. Por enquanto, o FMI vinha mantendo sigilo em torno de tudo isso, na expectativa do resultado dessas duas auditorias.
As informações começaram a vazar através do procurador geral russo, Iuri Skouratov ( afastado de suas funções ), que em entrevista ao correspondente do jornal "Le Monde", em Moscou, explicou que a procuradoria investigou também operações realizadas no mercado de títulos do Estado (GKO) por pessoas físicas.
Segundo ele, quando as investigações chegaram ao banco de dados eletrônicos do MBVD ( mercado de divisas interbancário)
descobriram-se coisas estranhas: "Lá se encontravam os nomes de numerosos ministros, dois vice-primeiros ministros, dirigentes do Banco Central e do Ministério de Finanças".
O procurador geral explicou ainda que através dos bancos e das estruturas financeiras, esses indivíduos passaram diversas ordens de aquisição e venda desses títulos. Eles estavam em possessão de informações privilegiadas sobre como evoluia o mercado desses títulos. Iuri Skouratov garante que esses ministros aplicaram somas substanciais. Até agora nenhuma denúncia pode ser pronunciada pela justiça, mas o procurador geral está suspenso de suas funções por determinação do presidente Boris Yeltsin. A evasão de rendas nos países de leste
segundo estimativa feita por experts na Suíça tem sido da ordem de 12 bilhões de dólares por ano, mas já superou o montante de 100 bilhões de dólares. Só o BC russo já aplicou 50 bilhões de dólares em paraíso fiscal.
As primeiras suspeitas sobre a forma de agir do Banco Central russo ocorreram em fevereiro, quando o mesmo procurador, Iuri Skouratov, dirigiu uma carta a Duma , o Parlamento russo , dizendo que o Banco Central russo confiava a gestão de uma parte de suas reservas monetárias à uma obscura empresa off shore, Fimaco, baseada na ilha anglo normanda de Jersey, um conhecido paraíso fiscal na costa francesa. A Fimaco, uma empresa cujo capital é de apenas 1.000 dólares, administrava por procuração "reservas em divisas, créditos do FMI e bonus do tesouro" de um montante de 50 bilhões de dólares. O procurador acrescentou na sua carta ao Parlamento que os dirigentes do banco e certos homens políticos eram suspeitos de desvios e se beneficiaram de informações privilegiadas durante a crise de 1998.
No início, a primeira reação dos dirigentes do Banco Central russo, anteriores e atuais, foi negar as acusações do procurador, mas pouco a pouco passaram a admitir as descobertas, tentando justificar a utilização dessa empresa off shore como uma tentativa de "otimizar" a gestão das reservas do país. Também Boris Fedorov, antigo ministro de Finanças, declarou que a Fimaco permitiu "a alguns amigos e personalidades oficiais do regime de realizar confortáveis ganhos".
Benefícios podem ter chegado a 1 bilhão de dolares - Uma tentativa de reconstituir os caminhos desse dinheiro foi feita pelo deputado independente russo, Nikolai Gontchar. Ele explicou
por exemplo, que entre 29 de fevereiro e 28 de maio de 1996, o Banco Central transferiu 859 milhões de dólares a Fimaco, dinheiro que voltou à Rússia, através duas filiais do Banco Central, o Eurobank, baseado em Paris, e Eurofinance, baseado em Moscou. A Fimaco retribuía esses depósitos a 5,5% , no mesmo momento em que as taxas de juros no mercado de títulos atingiam na Rússia 200%.
Só nesse ano, o deputado russo estima que os benefícios podem ter chegado a 1 bilhão de dólares, indagando quais foram os beneficiários, até agora desconhecidos. Uma coisa é certa, segundo o deputado. Para ele não foi o Estado russo, pois se desconhece a volta desse dinheiro ao caixa. Essas operações teriam durado até meados de 1998.
Iuri Skouratov revelou também ao jornal francês que ocorreram diversas infrações e abuso de poder. Numerosos operações envolvendo divisas foram feitas sem autorização do Banco Central que, posteriormente, antedatou algumas delas. Sua demissão decidida pelo Kremlin impediu que ele abrisse um investigação criminal sobre a atuação da empresa Fimaco. De qualquer forma, avalizando ou não o crédito de 4,5 bilhões de dólares à Rússia, o FMI terá que admitir que essa gestão paralela, obscura, quase secreta das finanças russas, nada tem a ver com a transparência que ele exige tanto em outras partes do mundo.

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