BC quer forçar bancos a baixarem juro de cheque especial
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2000
Por Soraya de Alencar 
Brasília, 22 (AE) - O governo quer forçar os bancos a baixar as taxas de juros cobradas no cheque especial. Estudos com este objetivo estão sendo conduzidos pelo Banco Central. "O cheque especial funciona quase como um monopólio", afirmou o diretor de Política Monetária do BC, Luiz Fernando Figueiredo, prometendo agir no curto prazo. "Não estamos satisfeitos com o que tem acontecido com o cheque especial", disse.
A insatisfação do governo é com fato destas taxas estarem na contramão da redução dos juros. De acordo com relatório divulgado hoje por Figueiredo, entre dezembro e janeiro, somente as taxas do cheque especial subiram enquanto nas demais operações de crédito houve redução dos juros. No crédito pessoal, por exemplo, a retração foi de 6,2 pontos percentuais, passando de 89,4% ao ano para 83,2% ao ano. No mesmo período as taxas do cheque especial passaram de 138,8% ao ano para 145,1% ao ano.
Figueiredo não revelou o que o governo pretende fazer, mas disse que "o caminho é pela concorrência". A idéia, segundo admitiu o diretor, é agir na parcela do ganho dos bancos. Ou seja, no "spread", que é a diferença entre a taxa de captação e a taxa final cobrada do cliente. Nos 145,1%, a parcela do spread é de 127,1%.
O diretor destacou que, especificamente no cheque especial, o cliente do banco "fica numa posição muito passiva". Diferente da condição que ele tem no momento em que pede um empréstimo. "No cheque especial ele entra e o empréstimo ele toma", afirmou. Figueiredo admitiu que é difícil ter concorrência no cheque especial porque o "cliente não sai de um banco para outro para ter direito ao cheque especial". Mas garantiu que os estudos do BC vão encontrar uma solução.
Desde outubro, quando o governo baixou um pacote de 21 medidas para a redução dos juros, a avaliação do diretor é que houve "avanço significativo". Considerando todas as operações de crédito, houve uma redução de 10,5 pontos percentuais na taxa média até janeiro. Em outubro a média estava em 70,6% ao ano e chegou a 60,1% ao ano no mês passado. Nesta média, o spread é de 42,1%.
Até o final do ano Figueiredo aposta que as taxas de juros ainda vão "recuar muito" com a redução do "spread" cobrado pelos bancos. Mas destacou que "dois anos ou mais serão necessários para chegar a uma taxa parecida com a que existe fora do Brasil". Nos países desenvolvidos o ganho médio dos bancos nas operações com pessoas físicas fica entre 15% e 25%. No caso das pessoas jurídicas é mais baixo e varia entre 5% e 7%. Mas no Brasil, destacou o diretor, "a demora para se restituir do crédito em atraso até dez vezes mais que nos outros países".
De acordo com o diretor, os dois últimos anos de instabilidade no Brasil contribuíram para a retração do volume de crédito e, consequente, aumento das taxas de juros cobradas pelos bancos. Ele acredita, no entanto, que este ano haverá uma expansão entre 30% e 40% do crédito porque a economia está em crescimento e tende à estabilidade. "A estabilidade é importante para a concorrência e para a transparência", disse.
Sobre o fato dos bancos estrangeiros não terem ainda dado a contribuição esperada na concorrência e também na redução dos juros, ele explicou que "na instabilidade ninguém dá crédito". Figueiredo descartou medidas drásticas dizendo que "o crédito não vai melhorar no Brasil com uma canetada". Ele disse que "só existirá uma grande oferta de crédito se o produto for bom".


