BC perde dossiê das fraudes no Nacional durante 8 horas
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segunda-feira, 03 de abril de 2000
Por Soraya de Alencar e Isabel Braga 
Brasília, 04 (AE) - O Banco Central confirmou hoje o sumiço do dossiê sobre as fraudes no Banco Nacional e, oito horas depois, informou ter achado o processo na 4ª Vara da Justiça Federal, em Brasília. Em maio de 1998, atendendo a um pedido da juíza Selene Maria de Almeida, o BC enviou os 33 volumes, com 4.966 páginas, referentes à parte administrativa do processo. Ou seja, a que deveria ser apurada e concluída pelo próprio BC. Esqueceu, e há vinte dias vinha procurando o dossiê na sede da instituição.
De acordo com o procurador-chefe do Banco Central, José Coelho Ferreira, um telefonema da diretora da secretaria da 4ª Vara, Sônia Maria Paulino, no início da noite, confirmou que o processo está na Justiça. Ainda amanhã, segundo Coelho, o BC vai requerer a devolução do documento para dar continuidade ao seu andamento. O próximo passo, de acordo com informações do BC, é a decisão sobre as penas que serão impostas a um ex-controlador e dois ex-administradores do Nacional.
Uma fonte do BC confirmou que o ex-controlador é Marcos Magalhães Pinto, e um dos ex-administradores é Clarimundo Sant´Anna, considerado o mentor das 652 contas fantasmas encontradas na instituição. Segundo a fonte, eles deverão ser punidos com inabilitação para o exercício de cargo no mercado financeiro.
No final da manhã de hoje, o diretor de Finanças Públicas e Regimes Especiais, Carlos Eduardo de Freitas, e de Fiscalização, Tereza Grossi, chegaram a dar entrevista explicando que o sumiço do dossiê havia sido detectado há 20 dias. Desde 98, no entanto, o Banco Central não mexe no processo que tem data de prescrição em 30 de junho. Coelho explicou, entretanto, que este prazo de prescrição só valeria se, ao longo de três anos, o BC deixasse o processo parado.
Nos registros do Banco Central consta que foi dado andamento no processo em março de 99. "Este registro está errado", admitiu Freitas sem conseguir explicar por que o BC deixou o processo do Nacional parado dois anos. "Esta pergunta não deve ser feita a mim", reagiu o diretor. Ele disse que a falta do documento só foi sentida por causa de uma avaliação feita no Departamento de Combate a Ilícitos Financeiros e Cambiais (Decif) sobre quais processos tinham data de prescrição no curto prazo.
Detectada a falta dos 33 volumes do processo, o Banco Central chegou a instalar uma comissão formada por três procuradores que tinham a missão exclusiva de localizar o documento. Freitas e Grossi haviam informado que o sumiço da parte administrativa não prejudicava o andamento do processo criminal que já havia sido enviado ao Ministério Público.
Ao longo das oito horas que demorou para confirmar a localização do processo, o BC promoveu um festival de informações desencontradas. Primeiro divulgou o sumiço, duas horas depois disse que tinha achado, mais meia hora voltou atrás e, finalmente, recebeu o telefonema da diretora da secretaria da 4ª Vara da Justiça às 19 horas. Nem mesmo o diretor Carlos Eduardo de Freitas tinha a nova informação dada pelo procurador-chefe do BC.
No meio da tarde, no desenrolar da confusão, em um telefonema para o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), senador Ney Suassuna, o presidente do BC, Armínio Fraga, informou que os ex-controladores e ex-administradores do Nacional jamais voltariam ao mercado financeiro. Suassuna passou a informação para o senador Romeu Tuma que, em seguida, tinha uma audiência com o presidente interino da República, Marco Maciel. A par do desaparecimento do processo e da decisão de Fraga, Maciel cobrou uma ação imediata do BC para achar os documentos.


