BC não definiu metas específicas para resgatar credibilidade, diz Paulo Leme
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de março de 1999
por Regina Cardeal 
São Paulo, 5 (AE) - O Brasil não conseguirá recuperar a credibilidade dos investidores internacionais se estes não tiverem como aferir se o programa a ser fechado hoje (sexta-feira) com o Fundo Monetário Internacional (FMI) está sendo cumprido. O diretor de pesquisa de mercados emergentes da Goldman Sachs, Paulo Leme, disse à Agência Estado que o Banco Central precisa definir metas específicas para a inflação e para o superávit fiscal. Para ele, a definição dessas duas metas foi o que faltou esta semana na atuação do Banco Central. Leme, que chegou a ser cogitado para uma das diretorias do BC, acredita, no entanto, que a fixação dessas metas acontecerá em breve.
O ideal, afirma ele, seria que, assim que fosse fechado o acordo com o Fundo, as autoridades brasileiras divulgassem quais as metas para a inflação, agregados monetários e superávit fiscal. "Para que a política monetária seja crível e o aumento da taxa de juros seja sustentável, é preciso conhecer a meta fiscal, para que não restem dúvidas de que a trajetória da dívida pública é igualmente sustentável", afirmou. O governo precisa definir a meta de inflação para o ano, que será projetada trimestralmente e "interpolada para o nível semanal"
acrescentou Leme, indicando o rigor com que os investidores internacionais vão monitorar a evolução dos preços antes de retornarem ao Brasil.
O economista acompanhou ontem, de Nova York, o pronunciamento de estréia de Armínio Fraga à frente do Banco Central. Em linhas gerais, Leme elogiou as duas atuações do BC esta semana: a elevação dos compulsórios e o aumento do juro. "O aumento do juro é especialmente bem recebido, uma vez que a inflação na casa dos 35% a 36% ao ano mostrava a insuficiência da taxa em 39%", afirmou ao comentar o novo patamar do Selic (overnight) em 45%. "Era evidente que a política monetária tinha que ser mais restritiva", afirmou.
Quanto ao câmbio, Paulo Leme afirmou que a Goldman Sachs fez um estudo mecânico com base em 66 países para avaliar a amplitude da desvalorização e qual seria o intervalo possível no caso do Brasil. O estudo aponta que o intervalo da taxa de câmbio, 12 meses após a desvalorização, ficaria entre R$ 1,90 e R$ 3,00 por dólar. A taxa, no entanto, dependerá, em larga medida, do cumprimento das metas do programa econômico, afirmou Leme. Sobre sua permanência em Nova York, depois de ser cotado para o Banco Central, Leme afirmou que, neste momento, considerou mais adequado, por razões profissionais e pessoais, continuar na Goldman Sachs.


