BC intervém no câmbio para conter valorização do real
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de março de 2000
Por Leandro Modé 
São Paulo, 24 (AE) - O Banco Central (BC) interveio hoje no mercado de câmbio para conter o avanço do real em relação ao dólar. Pela manhã, as cotações da moeda norte-americana continuaram a cair, chegando a R$ 1,7090, seguindo a tendência verificada nas últimas duas semanas. Pelo menos hoje a estratégia do BC funcionou. O dólar fechou cotado a R$ 1,7320, alta de 0,70% em relação ao fechamento de quinta-feira.
No início da noite, o BC confirmou a operação, mas não divulgou os valores. Profissionais do mercado financeiro, porém, especulavam que a compra ficou entre US$ 5 milhões e US$ 50 milhões.
De acordo com economistas, a intervenção não significa que exista um piso informal para o dólar ao redor de R$ 1,70. "Uma operação é pouco para saber se o BC pensa em um piso para o dólar", disse o economista do BankBoston Marcelo Cypriano. Segundo ele, somente as ações da autoridade monetária nos próximos dias poderão dar essa resposta.
É mais provável, disseram os analistas, que o objetivo da operação tenha sido o de reduzir as oscilações das cotações da moeda norte-americana. Entre segunda-feira e a manhã de hoje, o dólar registrava desvalorização de 1,67% em relação ao real.
"O câmbio realmente vinha caindo com muita rapidez nos últimos dias", afirmou o economista-chefe do Banco ING Barings, Mauro Schneider. "Esse excesso de volatidade é ruim para os agentes econômicos, dificulta o planejamento e aumenta o risco das operações com moeda estrangeira."
No regime flutuante, a taxa de câmbio é definida de acordo com a oferta e a procura de moeda estrangeira. Nos primeiros meses de 2000, alguns fatores fizeram o real se apreciar. Em primeiro lugar, houve emissões de bônus da República e de títulos de diversas empresas privadas, o que trouxe dólares para o País.
Em segundo, o ambiente macroeconômico positivo atraiu investimentos para o Brasil. O terceiro fator é que os investidores estrangeiros trazem seus dólares para o País para aproveitar a rentabilidade proporcionada pelos juros básicos da economia brasileira, hoje em 19% ao ano.
A partir de abril, a tendência é que a situação seja menos favorável ao real porque haverá muitos vencimentos de dívida externa, tanto do governo quanto do setor privado, o que fará aumentar a procura pela moeda norte-americana (ver reportagem abaixo).
De acordo com os economistas, por trás da intervenção do BC está a preocupação com o desempenho das exportações. Em tese, um real mais valorizado dificulta a venda de produtos brasileiros para o exterior, pois os encarece em dólar.
Com um câmbio de R$ 2 por dólar, por exemplo, uma calça de R$ 20 é exportada por US$ 10. Mas se o câmbio cai para R$ 1 70, como hoje, a mesma calça custa US$ 11,75. "A intervenção demonstrou que o BC não se sente confortável com a atual taxa de câmbio", analisou o economista-chefe do Banco Inter American Express, Marcelo Allain.
Segundo explicou o economista, o desempenho da balança comercial (exportações menos importações) é fundamental para restabelecer o equilíbrio do setor externo do País.
Nesta semana, o governo já anunciou uma revisão nas estimativas de saldo da balança comercial. Antes, esperava-se superávit de entre US$ 5 bilhões. Agora, admite-se que o saldo no fim do ano deve ficar ao redor de US$ 4 bilhões.


