Brasília, 28 (AE) - Após mais de cinco horas reunido na sede do Banco Central (BC), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Over/Selic (os juros básicos da economia) de 21% para 19,5% ao ano. O Copom também definiu que os juros terão uma tendência "neutra" pelo menos até a próxima reunião do Conselho, em setembro. Até hoje, a tendência dos juros era de baixa. Esse instrumento de política monetária dá liberdade ao presidente do Banco Central de mexer nos juros sem consultar o Comitê.
A decisão contrariou as expectativas do mercado, que esperava uma redução mais discreta. Segundo afirmou o diretor de Política Monetária do BC, Luiz Fernando Figueiredo, o fato de a Over/Selic ficar sem o indicativo de tendência significa que, até a próxima reunião do Copom, prevista para o dia 1° de setembro, não haverá mudança nas taxas de juros. "A nova taxa vai de hoje até a próxima reunião do Comitê", disse Figueiredo.
De acordo com o diretor, a decisão de retirar o indicativo foi tomada porque a economia já entrou em um período de maior estabilidade e de normalidade. "O viés foi um instrumento que deu maior flexibilidade ao Banco Central numa situação de instabilidade", explicou o diretor. Ele destacou, no entanto, que não há qualquer empecilho para que o instrumento volte a ser adotado numa próxima reunião do comitê.
Inflação - Na reunião de hoje, que foi uma das mais longas da história do Copom, Figueiredo disse que a prioridade para a decisão dos juros foi o comportamento da inflação. "Houve um soluço de inflação em junho e este mês", afirmou. "Mas a tendência do médio prazo está mais baixa do que o previsto pelo Banco Central", garantiu o diretor. Ele acrescentou que, pelas análises feitas pelo Copom, a tendência é de que a inflação volte a um patamar mais baixo.
Considerando o cenário externo, principal preocupação da maior parte dos analistas de mercado que apostavam numa queda máxima dos juros para 20%, o diretor do BC foi enfático: "O quadro externo não mostrou nada de positivo nem de negativo". Desde março, quando as taxas de juros foram elevadas para 45% e a tendência foi adotada, o BC já fez nove reduções nas taxas. Mas é a primeira vez que decide ficar sem o indicativo.
Analistas - Na avaliação do economista-chefe do Citibank, Carlos Kawall, agora é importante para o mercado que o governo dê sinais mais sólidos sobre mudanças no quadro fiscal. Ele acredita que a partir da aprovação das reformas da tributária e da previdência pelo Congresso Nacional, o governo terá mais credibilidade para fazer reduções mais fortes.
Uma fonte do Rio de Janeiro prevê que amanhã o mercado pode viver um certo tumulto, uma vez que a alternativa do BC de retirar o indicativo da tendência dos juros não foi considerado nos preços. "É possível que o mercado de juros reaja à decisão", afirmou.
Outro economista com sólida vivência de mercado apostou que a redução máxima seria para 20,25% por considerar que não havia mais espaço para queda. Ele afirmou que o câmbio tem sido pressionado, o que poderia gerar inflação, e isso justificaria a manutenção de taxas mais elevadas.
Para o economista-chefe do Banco Santander, Dany Rappaport, uma queda tímida, como era esperada, seria um indicativo da manutenção da política que o ex-presidente do BC Gustavo Franco, que era defender a moeda. "Defende-se a moeda quando há espaço fiscal para fazê-lo", afirmou o economista, para quem "não tem sentido manter taxas de juros na Lua" se o País vive uma situação fiscal delicada.

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