Bauru, SP, 13 (AE) - Atentados a bombas e tiros contra vereadores, um juiz e um promotor de Justiça marcados para morrer e um prefeito procurado pela polícia. Bauru, município de 300 mil habitantes, no noroeste do Estado, vive seus dias de Alagoas. O esquema de corrupção na cidade revelou até mesmo uma tabela de preços para assassinar políticos e integrantes do Judiciário e Ministério Público.
A decretação de duas prisões contra o prefeito afastado Antônio Izzo Filho (PPB), na semana passada, pelo Tribunal de Justiça, foi apenas o ápice da crise institucional que se abateu sobre a cidade, atingindo em cheio a auto-estima da população, interferindo em todas as áreas da administração.
De tradição universitária - conta, entre outras instituições, com a Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) - Bauru dispõe de 3,9 mil estabelecimentos comerciais e 500 indústrias, mas tem passado por um período difícil. O músico Silvio Vieira lembra o momento em que o prefeito reassumiu o cargo, com liminar, após ser cassado. "Quando ele voltou houve um clima de revolta muito grande". "Sustos" - E esse sentimento aumentou muito, especialmente com as revelações dos "assessores" contratados para destruir os opositores de Izzo Filho: "Era para dar um tiro na perna dele"
"Ele pediu para dar um susto nos vereadores...", "Queria matar o juiz e o promotor". As frases são de dois personagens essenciais da trama: Djalma Duarte Gonzaga (um ex-jogador de basquete, de mais de 100 quilos e 2 metros de altura, segurança de Izzo) e Alexandre Humberto dos Santos, um pedreiro contratado supostamente para auxiliar na execução dos atentados. Eles estão presos.
Em depoimento à polícia, acompanhado por promotores e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), eles revelaram detalhes da trama que vinha sendo desenvolvida, a mando de Izzo Filho, contra seus desafetos, que culminaria com o assassinato do juiz Mauro Ruiz Daró e o promotor de Justiça da Cidadania, Carlos Roberto Simioni. Segundo a polícia, o principal elo entre Izzo Filho e os executores dos atentados era Robertão ou Roberto Carlos Thomaz, outro segurança do prefeito, contratado com salário de cerca de R$ 3 mil. Cotação - Conforme as denúncias, ele recebia a ordem e o dinheiro para cometer os crimes, mas "terceirizava" o serviço. A cotação dos crimes em Bauru estava assim. "Dar um susto" ou um tiro na perna de um vereador custava de R$ 500,00 a R$ 1 mil. Matar o juiz e o promotor, R$ 30 mil, mais uma casa e um carro. Preso, Robertão diz que só falará em juízo. Também estão detidos os ex-assessores municipais Nivaldo Aparecido da Silva e Lourival Dadamus e o mototaxista Fábio Fernandes.
Engenheiro, eleito para o segundo mandato, não consecutivo, com mais de 50% dos votos válidos, Izzo Filho acumulou em duas gestões muita polêmica e 15 ações ajuizadas pelo Ministério Público - a maior parte por improbidade administrativa. Há casos de desvio de recurso, concussão (extorsão praticada por funcionário público) e até compra superfaturada de frangos para a merenda escolar. A incursão do prefeito no mundo dos crimes encomendados, porém, surpreendeu a população, levada ao estado de pânico pela sucessão de atentados.
A insegurança e os boatos eram tantos que até mesmo os vereadores aliados do prefeito estavam inseguros. "Havia um boato de que um vereador da situação iria sofrer um atentado para disfarçar a participação do Izzo", conta o vereador Rino Biagio (PPB). "E não era difícil eu ser o escolhido". "O nível de periculosidade do prefeito e de seus comparsas atingiu níveis jamais vistos pela sociedade de Bauru", diz o delegado Edson Cardia. Para policiais, promotores de Justiça e antigos aliados, o prefeito começou os atentados para intimidar denunciantes, afastar vereadores das apurações sobre corrupção e garantir seu retorno político. Ele teve o mandato cassado pela Câmara em agosto, retornou em dezembro, por força de liminar do Tribunal de Justiça, e foi novamente afastado em fevereiro, por ordem do juiz Daró, da 3.ª Vara Cível de Bauru.
O aparente restabelecimento da calma na cidade, com a decretação da prisão de Izzo Filho, adquire tons de suspense ao se ouvir a declaração dada ao Estado pelo segurança Gonzaga, preso na delegacia de Piratininga, cidade vizinha a Bauru. "Mais coisa ainda vai acontecer", avisa. "É uma máfia e tem muito mais gente envolvida".

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