Batlle descarta chamar Tabaré Vázquez para seu governo. Do enviado especial Lourival Sant'Anna
Montevidéu, 30 (AE) - O presidente eleito do Uruguai, o colorado Jorge Batlle, descartou hoje (30) a possibilidade de o líder da Frente Ampla, Tabaré Vázquez, derrotado no segundo turno, no domingo, participar de seu futuro governo. Mas se declarou "otimista" quanto ao relacionamento com a Frente Ampla, de centro- esquerda, que formou a maior bancada no Parlamento, ao obter 39% dos votos, nas eleições de 31 de outubro.
Vázquez deu sinais de que seu grupo não assumirá oposição automática ao governo. No domingo à noite, quando saíram os resultados da boca-de-urna prevendo a vitória de Batlle, por 52% a 45% dos votos, Vázquez fez um discurso aos militantes, em que abriu as portas à negociação com o governo: "Telefonei para Batlle e disse-lhe que nos encontraremos pessoalmente e como força política, sempre dispostos a trabalhar para melhorar as condições de vida do povo uruguaio." A reunião deve ocorrer em meados de janeiro.
"Creio que as linhas de comunicação serão fáceis", disse Batlle. A coalizão entre o Partido Colorado e o Nacional (blanco), que apoiou Batlle no segundo turno, necessitará da concordância de congressistas da Frente Ampla para aprovar reformas constitucionais e nomes de dirigentes das estatais, que requerem maioria qualificada de dois terços.
A Frente terá 12 dos 30 senadores e 40 dos 99 deputados, seguida pelos colorados, com 10 senadores e 32 deputados, pelos blancos, com 7 e 23, e o Novo Espaço, com 1 e 4, respectivamente.
Ao sair de reunião com o presidente Julio María Sanguinetti, também colorado, na noite de segunda-feira, Batlle foi indagado se a Frente Ampla poderia integrar a direção de órgãos do governo e de estatais. "Não é oportuno que eu afirme nem que negue essa possibilidade", respondeu. Quanto à composição do novo gabinete, o presidente eleito brincou: "Não me apresse, se quer tirar coisa boa de mim". E completou: "Temos tempo até março para organizar as relações com o Partido Nacional e a União Cívica." A União, que teve apenas 0,2% no primeiro turno, também apoiou Batlle no segundo.
Mas, segundo o jornal El Observador, o contador Alberto Bensión deve assumir o Ministério da Economia. O atual ministro do Planejamento e Orçamento, Ariel Davrieux, deve permanecer no cargo. O senador blanco Walter Santoro deve ficar com o Ministério da Defesa e o professor Gonzalo González, também blanco, com o da Agricultura. Os blancos devem participar de cinco ministérios, ou como titulares ou como vices. O ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-95), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 22%, foi capaz de canalizar praticamente todos os seus votos para Batlle no segundo. Sem isso, Batlle não teria sido eleito.
Ele havia perdido para Vázquez no primeiro turno, por 39% a 32%. "O êxito colorado nessa eleição teve a marca clara do Partido Nacional", lembrou Lacalle. "O governo (também) terá a marca clara do Partido Nacional."
"Já ingressamos na fase do cumprimento do nosso acordo com o futuro governo", disse Lacalle, lembrando documento firmado entre o primeiro e o segundo turnos que prevê a convocação de um "diálogo social", em meados deste mês. De acordo com a Frente Ampla, o pacote social imposto pelos blancos custaria US$ 700 milhões. "A esquerda está enganada", refutou, Batlle, reafirmando seus compromissos com "zero" de déficit público e de inflação. Hoje, esses índices estão em 4,6% e 3,3% (ao ano), respectivamente.
Na segunda-feira, Vázquez simplesmente saiu de cena. Anunciou que foi pescar com a família, por uma semana. Já o senador Rafael Michelini, que teve 4,5% no primeiro turno e lidera o Novo Espaço, grupo socialista independente da Frente Ampla, disse que "é cedo" para definir sua posição em relação ao futuro governo, mas também se mostrou aberto a negociações.





