Batalhão reúne histórias de abuso e violência
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sexta-feira, 18 de novembro de 2005
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Depoimentos de ex-soldados do atual 20º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB) de Curitiba à Folha apontam que humilhações e violência entre os militares fazem parte da história da instituição. Espancamento, ameaças com cobras e inanição eram algumas das provações sofridas por soldados durante treinamentos na década de 70, conforme os relatos.
Os dois homens entrevistados pela reportagem residem hoje na região de Londrina. Após prestarem o serviço militar obrigatório em 1971, aos 18 anos, nenhum deles optou por seguir carreira. Hoje tocando uma microempresa em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), Sebastião (que pediu para ter o verdadeiro nome preservado), 53, teve memórias reacendidas ao ver as imagens recentes de trotes violentos contra novatos no 20º BIB, veiculadas em rede nacional de televisão nesta semana.
''O comando apareceu dizendo que não sabia, como se isso fosse novo. Na verdade, essas práticas são antigas. Em 1971, eu vivi um inferno de três dias, uma imitação dos campos de concentração de Auschwitz'', recorda Sebastião. Inferno que era chamado de estágio pelos comandantes e pelo qual soldados de todas as companhias tinham que passar.
Numa noite gelada e chuvosa de julho, em plena ditadura militar, Sebastião lembra que foi espremido com mais ''cento e poucos'' soldados da 3 Cia da BIB em um único vagão de trem rumo à Estação do Véu da Noiva, na Serra do Mar. De difícil acesso por terra, o local era coberto por uma extensa mata virgem, com vários trechos banhados. ''Foram três dias e três noites nesse lugar sem dormir, sem comer, passando por uma lavagem cerebral. Tinha horas que a gente não sabia mais o que era realidade ou pesadelo'', relata.
Sebastião lembra que foi obrigado a comer pedaços de galinha crua, ''com pena e tudo'', enquanto alguns soldados foram forçados a beber o sangue das aves. O grupo não tinha acesso a outros alimentos e matava a sede com água da chuva. Com frequência, os estagiários eram surpreendidos com jibóias enroladas em seus pescoços pelos oficiais.
Cenas como essas podem até ser encaradas como normais em treinamentos de sobrevivência, mas eram permeadas por abusos. ''No último dia, colocaram a tropa toda em fila e anunciaram que finalmente teríamos direito a uma refeição. Aí jogaram a comida toda no lamaçal e pisaram em cima. Eu e alguns colegas enfiamos a mão no barro para pegar uns pedaços de carne. Estávamos desesperados'', desabafa. Outro momento humilhante para o ex-soldado foi quando o comandante quebrou um relógio em sua cabeça. Sebastião não pôde reagir.
Ao receber a reportagem na sua casa, na Área Central de Londrina, o tapeceiro Lócio Vinicius do Rosário, 53, mostra que também mantém vivas as recordações daquele julho de 71. ''Os soldados eram afundados em poços estreitos cheios d'água, levavam tapas, 'pés no ouvido', tudo sob temperatura de dois graus negativos'', revive. A prova final do estágio era chegar ao núcleo de Quatro Barras (Região Metropolitana de Curitiba) sem ser preso pelos oficiais. Na fuga, Rosário encontrou a palhoça de uma família humilde no meio da mata. ''O homem disse que poderia me dar o mesmo que seus filhos iriam comer: agrião com farinha de mandioca. Foi a melhor refeição da minha vida''.
O tapeceiro sustenta que as agressões físicas e morais eram ''desnecessárias'', mas afirma, esboçando uma lágrima, que sente saudades do Exército. ''A pessoa saía de lá realmente preparada, coisa que não acontece mais. Você saía um bom homem ou um bom bandido'', analisa. Sebastião não vê assim: ''Aquilo não era normal, alguns soldados piravam. Acho que não é com medo que você ensina alguém. Não tenho trauma, mas é uma lembrança ruim''.


