Brasília, 27 (AE) - A base aliada decidiu dar uma trégua no tom das críticas feitas ao governo. Com a popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso despencando, os partidos da base de sustentação resolveram apostar numa unidade, mesmo momentânea, para impedir que a oposição passe a capitalizar a insatisfação dos brasileiros.
A nova postura da base, iniciada há uma semana, é avaliada como um reflexo da Marcha dos Cem Mil, o maior protesto realizado contra o governo.
Fernando Henrique notou a diferença no tratamento que passou a receber dos aliados. Para um interlocutor próximo, o presidente lembrou que um possível fracasso do governo significaria um grande prejuízo para todos os partidos da base e
portanto, era preciso dar uma pausa no tom das reclamações. Até porque os aliados estavam mais críticos do que a oposição.
"A passeata teve o seu lado ruim porque demonstrou, numa imagem física, o que as pesquisas estavam indicando com os números", avalia o vice-presidente nacional do PFL, senador José Jorge (PE). "Mas também teve o seu lado positivo, ao conseguir unir a base em defesa da democracia, já que os aliados não estavam unidos em torno do programa do presidente", completa. O secretário-geral do PSDB, deputado Márcio Fortes (RJ), reforça esse argumento. "A unidade da oposição causou a nossa união", comenta Fortes.
O líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), também faz uma avaliação semelhante. "O maior desafio do governo é manter a base unida, principalmente nos momentos de baixa popularidade, até que apareçam os efeitos da recuperação da economia", pondera o tucano. "A oposição ajudou-nos a lembrar que estamos todos no mesmo barco."
Já o deputado pefelista Roberto Brant (MG) vai além nesta observação. Ele lembra que, enquanto a oposição estava "modorrenta", a base dava-se ao luxo de fazer restrições ao governo. "Se o presidente pudesse, teria encomendado esta marcha, já que ela acabou reaglutinando os aliados", avalia Brant, lembrando que a política é a arte da conveniência e da oportunidade. Ele recorda que a base estava num processo muito rápido de desintegração. "Pelo menos agora, os aliados irão arrefecer suas críticas até passar o eco da marcha", aposta Brant.
Mesmo assim, dentro do governo, a ordem é minimizar os efeitos da manifestação. O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, reconhece que, nos últimos dias, houve uma mudança no comportamento dos aliados
mas evita relacionar esta transformação com o movimento da oposição. "Isso seria tirar mais da marcha do que realmente ela teve", ponderou. "Mas, independente da manifestação da oposição, os aliados passaram a reconhecer a importância da unidade, já que, caso contrário, todos seriam prejudicados", avalia Ferreira.
O líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), também prefere não fazer nenhum paralelo entre a marcha e a mudança de comportamento do partido. Mas, dentro do governo, a nova postura do PMDB é o fato político que mais chamou a atenção nos últimos dias.
Principalmente depois que Geddel substituiu cinco deputados da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara que votariam contra o governo no relatório que pedia a inconstitucionalidade do projeto que anistiava os produtores rurais.
"O PMDB percebeu que uma divisão pública na base não estava trazendo nenhum ganho", explica Geddel. "Agora, nossas discordâncias continuam sendo colocadas, mas internamente", conta ele, revelando o novo estilo de agir do PMDB. Segundo Geddel, é preciso que os aliados pensem em médio prazo. "Houve uma tomada de consciência de que não dá para deixar esse governo afundar; caso contrário, iremos juntos", reconhece.

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