São Paulo, 06 (AE) - O ex-ministro das Comunicações e atual vice-presidente nacional do PSDB para Assuntos Econômicos, Luiz Carlos Mendonça de Barros, sugeriu hoje ao presidente Fernando Henrique Cardoso que assuma "a derrota parcial do Plano Real". Colocando mais lenha na fogueira na difícil situação da equipe econômica com os partidos aliados do governo, Mendonça de Barros disse que o núcleo da equipe é formado por burocratas que não estão sintonizados para os problemas do lado real da economia. "Se eu fosse o Fernando Henrique, eu assumiria essa derrota parcial e faria a retirada de algumas trincheiras do Plano", afirmou, para uma platéia de executivos financeiros e empresários reunida pelo Banco Pactual para debater as crises cambiais no Mercosul. Mendonça de Barros disse que o presidente Fernando Henrique deveria fazer mudanças na condução da política econômica para evitar uma crise "muito séria" no futuro.
Na sua opinião, o presidente deveria comandar um novo período de mudanças - "e assumir que elas irão afetar a sociedade" - e introduzir dentro da equipe econômica a preocupação com a "microeconomia, o lado real e o aumento da oferta de bens". "Sem esse parâmetro de análise no governo, corremos o risco de que as decisões do governo só piorem os problemas que eles querem resolver", afirmou.
Mendonça de Barros comparou o Plano Real a um exército que vai ocupando posições e montando trincheiras durante uma guerra. Para ele, é preciso agora recuar em algumas posições para não perder a batalha. A mudança da política cambial, em janeiro, foi uma "retirada estratégia" correta, disse ele. "O recuo do câmbio foi básico, mas outros precisam ser feitos", insistiu. Questionado para detalhar outros "recuos" necessários, Mendonça de Barros disse que o governo precisa adequar "a agenda de mudanças estruturais à realidade política". O presidente, disse, não conta mais com o mesmo Congresso do primeiro mandato e precisa negociar de acordo com essa nova realidade. Outro recuo sugerido é na questão fiscal: mesmo que a reforma não seja a dos "nossos sonhos, ela não pode manter a lógica perversa de onerar a produção".
Mendonça de Barros disse que os atuais membros da equipe são pessoas que não têm sensibilidade em relação à economia real e com os problemas microeconômicos. "Prevalece a lógica quantitativa e financeira na questão fiscal", afirmou. "A busca do equilíbrio fiscal está fazendo-se à custa da irracionalidade microeconômica", observou, referindo-se ao excesso de impostos que incide sobre a produção.
Mendonça de Barros classificou a si mesmo como "um recém-torrado que saiu do governo há tempo suficiente para alcançar a benesse da racionalidade". Barros assumiu que havia uma divergência dentro da equipe econômica com relação à importância da microeconomia. Um grupo - do qual fizeram parte ele, o atual ministro da Saúde, José Serra, seu irmão, José Roberto Mendonça de Barros, e André Lara Resende, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - tentou introduzir essas questões da microeconomia no Plano Real, segundo sua versão. Para ele, a imprensa generalizou as diferenças e as traduziu na polêmica entre desenvolvimentistas e monetaristas. "E aí se abriu um fosso que não existia", observou.
Entre suas críticas, só sobraram elogios para o novo ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho. "A atitude do Brasil, de suspender as negociações com a Argentina, foi correta e foi um dos resultados da mudança ministerial, pois um ministro do Desenvolvimento teve, pela primeira vez, uma resposta enérgica, como a atitude do país vizinho exigia."

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