Buenos Aires, 14 (AE) - O papel está a ponto de transformar-se no pivô de uma nova crise comercial entre o Brasil e a Argentina: a Secretaria de Indústria e Comércio anunciará nos próximos dias uma resolução que determinará licenças prévias para a importação de papel, sem excluir os países do Mercosul. Desta forma, as licenças que permitirão a entrada do produto poderão levar até 95 dias para serem concedidas. O papel atingido seria o papel para impressão, escrita ou alguma espécie de utilidade gráfica. Especula-se que o papel acetinado ou papel de imprensa liso também receberia a aplicação de licenças prévias nos próximos meses.
Esta medida é similar à aplicada no mês passado contra os calçados, que estabeleceu as licenças prévias. Além disso, como nos calçados, o papel também já possui a obrigatoriedade de etiquetas que descrevam detalhadamente a composição do produto. As medidas também implicam em que os importadores dêem garantias dos produtos, fato que foi considerado como "impossível de cumprir à risca".
Da mesma forma que com os calçados, o governo sustenta que esta não é uma tentativa de reduzir as importações, mas somente de "defesa do consumidor". Apesar desses argumentos, os importadores sustentam que a verdadeira razão é a entrada crescente do papel brasileiro no mercado argentino: anualmente, entram 60 mil toneladas de papel brasileiro no país, e o intercâmbio comercial proporciona um superávit de US$ 60 milhões às empresas brasileiras.
O setor de papel argentino protestava há tempos contra isso, alegando que a desvalorização do real havia tornado o papel brasileiro mais competitivo. No primeiro semestre deste ano, cresceu em 9,31% a importação de papel do Brasil. Empresários dos dois países chegaram a um estabelecimento de cotas, mas os argentinos suspenderam as negociações alegando que de maio a julho o Brasil ultrapassou as cotas determinadas.
A resolução 653/99 estabelece que com o papel, deverá haver uma lista que identifique sua marca comercial, classificação do tipo de papel, qualidade, a existência de misturas no papel e medidas. Estes certificados serão exigidos a partir do 7 de outubro para importadores e também os fabricantes argentinos.
O subsecretário de Comércio Exterior, Félix Peña, desculpou-se à imprensa brasileira: "esse tema é de comércio interior", afirmou. O Secretário de Relações Econômicas Internacionais, Jorge Campbell, ironizou o despontar do novo conflito comercial e eximiu-se também de explicações, afirmando que a questão do papel não era com a Chancelaria: "é como quando pedem-se explicações ao Brasil e eles dizem que os impedimentos para a entrada de arroz argentino é uma questão fitossanitária e por isso da alçada do Ministério da Saúde...", disse
O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Benedito Fonseca Moreira, afirmou que o Estado moderno "não pode ser mais um pai protetor da iniciativa privada. Ele nem tem mais recursos para isso". Moreira, que também é presidente do Conselho de Comércio Exterior do Mercosul (Mercoex), esteve em Buenos Aires para a décima-quarta reunião do Mercoex e os seminários do Dia da Exportação Argentina, que reuniu exportadores do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Chile, Peru e Estados Unidos.
No entanto, Moreira sustentou que o Estado ainda tem um importante papel a cumprir "no comércio exterior, onde deve haver uma parceria com o setor privado. Ele tem que fazer as grandes negociações externas, como por exemplo com a OMC ou o Mercosul". Segundo o líder exportador brasileiro, os problemas comerciais do bloco "somente encontrarão soluções após as eleições argentinas. Antes disso, nenhuma".

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