Barragem vai causar inundação de mata primitiva
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Da Redação 
Desde 1989, um grupo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem feito trabalho sistemático sobre a biodiversidade ambiental em toda a extensão do rio Tibagi. Conhecido como Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi, o projeto nasceu de um convênio entre a própria UEL, Consórcio Intermunicipal de Proteção da Bacia do Rio Tibagi (Tibagi) e a empresa Klabin de Papel e Celulose, de Telêmaco Borba (171 quilômetros ao sul de Apucarana).
Ao longo desses anos, as descobertas produziram sentimentos tanto de euforia - pela constatação da enorme variedade de espécies animais e vegetais que habitam a região - quanto decepção - quando percebiam que a devastação continuava avançando em passos às vezes tímidos, outras vezes largos, mas sempre avançando. Agora, além do trabalho de levantamento, o grupo se preocupa em estruturar a mata para o replantio e também na educação ambiental.
O professor Francisco Soares, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL e coordenador do projeto, acredita que o trabalho contribuiu para minimizar a devastação. Segundo ele, o ambiente está se recompondo em algumas áreas, com plantio de árvores, diminuição do lançamento do esgoto não tratado na água, da utilização de inseticidas e até através da conscientização da população que convive com o rio.
Mas a grande preocupação hoje do professor é mesmo com o projeto de construção de algumas barragens de usina hidrelétrica ao longo do trecho do rio Tibagi e que poderia simplesmente inundar as poucas áreas nativas que sobraram no estado. Pessoalmente acho que o estrago com a instalação de uma usina é muito grande, observa.
O professor comenta que, pelos projetos apresentados pela Copel, um pedaço da mata Doralice será inundada. A mata é a única primitiva no baixo Tibagi. E ela se encontra numa situação inclinada, ou seja, a margem baixa do rio, que será inundada, sofre influência direta do próprio rio, informa. Isso significa, segundo o professor, que a vegetação que ocorre na parte baixa do Tibagi, sobretudo a arbustiva, não existe na parte alta e nem poderia ser recomposta, como afirma a Copel.
A Copel disse que plantaria essa vegetação mais acima, mas não adianta, porque o solo é diferente, diz. Além desse prejuízo, existe ainda a possibilidade de eliminar espécies vegetais ainda completamente desconhecidas na região, que poderiam ficar para sempre debaixo da água. E mais: o desperdício de plantas com princípio ativo próprias para a medicina natural.
O importante da mata Doralice não é o quanto vai ser inundado, mas o que vai ser, destaca. Francisco Soares não é completamente contrário à construção de barragens, mas acredita que isso deve ser feito com melhores critérios e sem nunca deixar de observar as alternativas que hoje existem em termos de energia.
Uma questão é: quanto de energia nós realmente estamos precisando? O professor lembra ainda que todos os dados referentes a isso são fornecidos pela própria Copel e que não existe para isso uma fonte independente, formada por técnicos externos à companhia. Qualquer vendedor quer provar que seu produto é necessário.
Para o coordenador do projeto Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi, existem energias alternativas, como a solar, que poderiam ser encaradas com maior seriedade. Ele acha que, se isso fosse feito, poderia haver uma economia de até 20% de energia gasta atualmente, além de suprir a demanda por mais 10 ou 15 anos sem alterar o sistema atual de hidrelétricas.
A energia hidráulica vai ser sempre necessária, mas não podemos pensar que ela é a única. Por isso a gente não é radicalmente contra a utilização das usinas, apenas acha que essa proposta da Copel é exagerada e há necessidade de mais discussão, explica.
Há ainda outro problema que será incontornável com a construção das barragens propostas pela Copel. Com um total de 550 quilômetros de extensão, o Tibagi significa, em liguagem indígena, rio de corredeiras, em função da grande diferença de altitude entre a nascente e a foz. No município de Palmeira, na Serra de São Luiz do Purunã, onde o rio nasce, a altitude aproximada é de 1.100 metros. Já na foz, na represa de Capivara (Rio Paranapanema), entre os municípios de Sertaneja e Primeiro de Maio, a altitude é de apenas 280 metros. Com a construção das sete usinas hidrelétricas projetadas pela Copel, o rio que leva as corredeiras no nome se transformará num imenso lago de águas calmas.


