Desde 1989, um grupo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem feito trabalho sistemático sobre a biodiversidade ambiental em toda a extensão do rio Tibagi. Conhecido como ‘‘Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi’’, o projeto nasceu de um convênio entre a própria UEL, Consórcio Intermunicipal de Proteção da Bacia do Rio Tibagi (Tibagi) e a empresa Klabin de Papel e Celulose, de Telêmaco Borba (171 quilômetros ao sul de Apucarana).
Ao longo desses anos, as descobertas produziram sentimentos tanto de euforia - pela constatação da enorme variedade de espécies animais e vegetais que habitam a região - quanto decepção - quando percebiam que a devastação continuava avançando em passos às vezes tímidos, outras vezes largos, mas sempre avançando. Agora, além do trabalho de levantamento, o grupo se preocupa em estruturar a mata para o replantio e também na educação ambiental.
O professor Francisco Soares, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL e coordenador do projeto, acredita que o trabalho contribuiu para minimizar a devastação. Segundo ele, o ambiente está se recompondo em algumas áreas, com plantio de árvores, diminuição do lançamento do esgoto não tratado na água, da utilização de inseticidas e até através da conscientização da população que convive com o rio.
Mas a grande preocupação hoje do professor é mesmo com o projeto de construção de algumas barragens de usina hidrelétrica ao longo do trecho do rio Tibagi e que poderia simplesmente inundar as poucas áreas nativas que sobraram no estado. ‘‘Pessoalmente acho que o estrago com a instalação de uma usina é muito grande’’, observa.
O professor comenta que, pelos projetos apresentados pela Copel, um pedaço da mata Doralice será inundada. ‘‘A mata é a única primitiva no baixo Tibagi. E ela se encontra numa situação inclinada, ou seja, a margem baixa do rio, que será inundada, sofre influência direta do próprio rio’’, informa. Isso significa, segundo o professor, que a vegetação que ocorre na parte baixa do Tibagi, sobretudo a arbustiva, não existe na parte alta e nem poderia ser recomposta, como afirma a Copel.
‘‘A Copel disse que plantaria essa vegetação mais acima, mas não adianta, porque o solo é diferente’’, diz. Além desse prejuízo, existe ainda a possibilidade de eliminar espécies vegetais ainda completamente desconhecidas na região, que poderiam ficar para sempre debaixo da água. E mais: o desperdício de plantas com princípio ativo próprias para a medicina natural.
‘‘O importante da mata Doralice não é o quanto vai ser inundado, mas o que vai ser’’, destaca. Francisco Soares não é completamente contrário à construção de barragens, mas acredita que isso deve ser feito com melhores critérios e sem nunca deixar de observar as alternativas que hoje existem em termos de energia.
‘‘Uma questão é: quanto de energia nós realmente estamos precisando?’’ O professor lembra ainda que todos os dados referentes a isso são fornecidos pela própria Copel e que não existe para isso uma fonte independente, formada por técnicos externos à companhia. ‘‘Qualquer vendedor quer provar que seu produto é necessário.’’
Para o coordenador do projeto ‘‘Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Rio Tibagi’’, existem energias alternativas, como a solar, que poderiam ser encaradas com maior seriedade. Ele acha que, se isso fosse feito, poderia haver uma economia de até 20% de energia gasta atualmente, além de suprir a demanda por mais 10 ou 15 anos sem alterar o sistema atual de hidrelétricas.
‘‘A energia hidráulica vai ser sempre necessária, mas não podemos pensar que ela é a única. Por isso a gente não é radicalmente contra a utilização das usinas, apenas acha que essa proposta da Copel é exagerada e há necessidade de mais discussão’’, explica.
Há ainda outro problema que será incontornável com a construção das barragens propostas pela Copel. Com um total de 550 quilômetros de extensão, o Tibagi significa, em liguagem indígena, ‘‘rio de corredeiras’’, em função da grande diferença de altitude entre a nascente e a foz. No município de Palmeira, na Serra de São Luiz do Purunã, onde o rio nasce, a altitude aproximada é de 1.100 metros. Já na foz, na represa de Capivara (Rio Paranapanema), entre os municípios de Sertaneja e Primeiro de Maio, a altitude é de apenas 280 metros. Com a construção das sete usinas hidrelétricas projetadas pela Copel, o rio que leva as corredeiras no nome se transformará num imenso lago de águas calmas.

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