Belém - O barco D. Luiz XV, com mais de 300 pessoas à bordo naufragou na madrugada de ontem, em Barcarena, quando fazia, pelo Rio Pará, o trajeto Manaus-Belém. Cinco mortos foram resgatados até o final da tarde de ontem, por homens do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, mas 106 pessoas estão desaparecidas. A embarcação tinha capacidade para transportar apenas 140 passageiros.
A polícia de Barcarena abriu inquérito para apurar as causas do acidente e ontem mesmo começou a ouvir alguns sobreviventes, que acusaram o gerente do barco, conhecido apenas pelo neme de Paulo, e sua tripulação, além da falta de fiscalização da Capitania dos Portos, como responsáveis pela tragédia.
Os passageiros afirmam que todos os tripulantes estavam embriagados no momento do naufrágio e ignoraram as advertências de outros barqueiros da região para não atravessar a baía do Rio Pará com o barco superlotado. ''Nunca mais vou esquecer aquele inferno. As pessoas que não tinham salva-vidas gritavam por socorro. Vi crianças serem tragadas pela água quando o barco começou a afundar'', narrou o passageiro Antonio Pereira. Ele escapou porque conseguiu nadar até a praia do Cururu, onde pela manhã encontrou outros nove sobreviventes, inclusive duas crianças, salvas pelos pais.
O barco saiu de Manaus no último dia 11, com destino a Santarém (PA), onde os passageiros deveriam descer para pegar um barco maior, que conduziria a todos até a cidade de Belém, onde a maioria possui parentes, para passar as festas de Natal e Ano Novo. Mas em vez de mudar de barco, o comandante do D. Luiz XV, que pouco conhecia a rota até Belém, resolveu prosseguir a viagem, o que deixou irritados e apreensivos os passageiros.
Com sua lotação esgotada, o barco ainda apanhou mais de 30 passageiros em Santarém. Nos portos de Monte Alegre, Oriximiná e Gurupá, pelos menos mais 70 pessoas subiram. Em Monte Alegre, a tripulação arrumou espaço para 600 quilos de milho.
''Os responsáveis por esse crime devem pagar pelas mortes que provocaram e terminar seus dias na cadeia. Se muita gente escapou, principalmente as crianças, foi por milagre de Deus'', dizia o sobrevivente Luiz Campos Melo. Chorando muito, Melo contou que pelo menos seis pessoas de sua família ainda estavam desaparecidas. ''Não localizei meus quatro irmãos. Torço para que eles tenham nadado até alguma praia e conseguido se salvar''. O Corpo de Bombeiros e a Capitania dos Portos informaram que as buscas continuam na região do naufrágio, apesar da forte correnteza.
O capitão dos Portos no Pará, Jaerte Bazyl, reconheceu as deficiências da fiscalização, mas explicou que em muitos portos não existem postos de vigilância e pessoal para fazer o controle de passageiros que entram e saem dos barcos. ''Em Santarém, esse barco foi fiscalizado pela Capitania e não havia excesso de passageiros'', garantiu Bazyl, que determinou a abertura de inquérito administrativo para apurar a responsabilidade do dono do barco pelo naufrágio.

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