Washington, 28 (AE) - O embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, admitiu hoje que o governo "esgotou" as iniciativas junto às autoridades norte-americanas para convencê-las a reduzir as barreiras comerciais, afetando mais de 80 produtos brasileiros. Os EUA estão adotando cada vez mais medidas protecionistas - uma tendência que ele espera continuará até as eleições presidenciais do ano 2000.
Hoje Barbosa divulgou um estudo de 60 páginas, destacando todas as barreiras tarifárias e não tarifárias adotadas pelos EUA, que afetam produtos e serviços brasileiros. O documento é a atualização de outros, apresentados pela Embaixada, nos anos anteriores. Ao compará-los o embaixador concluiu que de pouco adiantará continuar reclamando ao governo norte-americano e marcando reuniões para tentar solucionar as controvérsias comerciais.
"Por estar num ano eleitoral, o governo dos Estados Unidos está mais vulnerável às pressões internas, de empresas e governos estaduais, interessados em proteger o mercado norte-americano e os empregos de setores da economia pouco competitivos", disse Barbosa. Para defenderem seus interesses, o governo e os exportadores brasileiros terão que mudar de tática, concluiu o embaixador.
Como exemplo, Barbosa citou o caso de produtos siderúrgicos brasileiros, cujas exportações aos EUA foram praticamente interrompidas desde janeiro passado. Sabendo que neste ano de campanha eleitoral o governo precisará do apoio dos sindicatos para seu candidato à presidência, o poderoso lobby do aço norte-americano entrou em ação.
Ao Congresso, o lobby do aço pediu leis estabelecendo quotas para as importações de siderúrgicos, que não foram aprovadas porque violam as regras de comércio internacional. Ao governo pediu que investigasse os laminados a quente e a frio, importados do Brasil e de outros países. O argumento é que os brasileiros estavam praticando "dumping" (venda de um produto a preços inferiores aos praticados no mercado de origem ou aos custos de produção), prejudicando suas indústrias.
"Os laminados a quente do Brasil não podiam estar causando prejuízos à indústria siderúrgica norte-americana porque representavam apenas 0,5% do mercado", disse Barbosa. Mesmo assim, as exportações do produto aos EUA foram interrompidas desde janeiro passado.
Como estratégia nova, Barbosa sugeriu uma associação do governo e dos exportadores brasileiros com a indústria dos EUA, que depende do aço e prefere importar um produto mais barato do que pagar caro para proteger as usinas norte-americanas. Essas indústrias (entre as quais as fábricas de automóveis) empregam 40 vezes mais pessoas que os 167 mil trabalhadores das usinas de aço. "Nos EUA precisamos agir como agem os americanos", disse Barbosa.
Além de aço e outros produtos que há anos tem sido afetados por barreiras comerciais (suco de laranja, calçados, carne e açucar) o documento cita os subsídios que os EUA dão aos seus produtores agrícolas. Também critica a decisão do governo norte-americano de colocar o Brasil na "lista de observação" de países que não respeitam a propriedade intelectual e poderão estar sujeitos a sanções unilaterais.
O Brasil aprovou uma das legislações mais modernas de propriedade intelectual. Mas o governo americano argumenta que o País carece de pessoas, instalações e equipamento para implementá-la e que a pirataria de discos continua.
O documento divulgado hoje mostra que de 1994 a 1998 o comércio entre Brasil e EUA aumentou em 51,2%, de US$ 15,5 bilhões para US$ 23,4 bilhões. Mas esse crescimento foi desequilibrado. As exportações norte-americanas aumentaram 103 1% nesse período, enquanto que as brasileiras apenas 11,9%.
Até o começo de 1999, os EUA atribuiam esse desequilíbrio ao real sobrevalorizado. Mas segundo Barbosa, de janeiro a agosto deste ano a moeda brasileira perdeu metade de seu valor em relação ao dólar. E o Brasil continua com um déficit de US$ 800 milhões na sua balança comercial com os Estados Unidos.

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