Brasília, 06 (AE) - O presidente nacional e líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA), rebateu hoje as informações de que o governo federal vai limitar os trabalhos de apuração da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga irregularidades do Sistema Financeiro. Ele garantiu que a comissão poderá ser prorrogada se houver fatos que exijam apuração prolongada. Incomodado com as notícias de que a partir de agora haverá uma operação para abafar a CPI e encerrá-la dentro do prazo de 120 dias, o senador respondeu: "Presta um desserviço ao governo aqueles que propagam que Fernando Henrique está interessado em abafar e obstruir os trabalhos da CPI", disse.
Ele negou ter recebido qualquer pedido do governo para não ultrapassar o prazo de 120 dias para a comissão, fixado no requerimento de sua criação. "Como posso limitar uma apuração?", rebateu, frisando que a queda na popularidade do presidente não resulta da CPI do Sistema Financeiro. O senador tem conversado frequentemente com o presidente Fernando Henrique e esteve hoje à noite no Palácio do Planalto.
As declarações de Barbalho foram dadas um dia após a articulação governista para esvaziar o depoimento do deputado Aloísio Mercadante (PT-SP), que por pouco não foi prestado em uma sessão secreta. O assunto acabou criado uma crise na base, que só não tomou proporções maiores por causa da interferência do presidente Fernando Henrique Cardoso, alertado por Jáder sobre o risco da manobra para a imagem do governo.
Segundo um senador que presenciou o telefonema, o presidente do PMDB teria dito que a realização de sessão secreta acabaria levantando suspeitas na opinião pública sobre o depoimento da última quarta-feira, quando foram ouvidos os procuradores do Banco Central. Veja os principais pontos da entrevista: Agência Estado - Com tantos assuntos para apurar, é possível limitar a CPI em apenas 120 dias? Jáder Barbalho- Como posso limitar uma apuração de CPI? O ótimo é que ela fosse de até 60 ou 30 dias. Isso seria o ideal: apurar tudo no mais breve espaço de tempo. Se há necessidade de esgotarmos todo o prazo de 120 dias, e se for necessário - como já ocorreu em tantas outras comissões - os trabalhos da CPI serão prorrogados por mais 60 dias. As circunstâncias é que vão ditar isso. AE - Mas o governo articula para limitar os trabalhos e o tempo da CPI. Barbalho - Como o governo? Eu não ouvi isso de ninguém. Nenhum integrante do governo me pediu para limitar a CPI. Presta um desserviço ao governo aqueles que propagam que Fernando Henrique está interessado em abafar e obstruir os trabalhos da CPI. Essas pessoas não ajudam o presidente da República. Essas pessoas comprometem a imagem do presidente. Até porque elas passam a apresentar Fernando Henrique como uma pessoa interessada em não apurar. Eu discordo disso e acho essa postura uma leviandade. Não colabora com o governo, quem parte da premissa de que é interesse do governo acabar com isso o mais rápido possível. AE - Alguns analistas do Planalto acreditam que as CPIs do Sistema Financeiro e do Judiciário jogam luzes para a sucessão presidencial. Inclusive o PFL lançou a moção de candidatura própria em 2002, como já fez o PMDB. A disputa já começou? Barbalho - Isso é uma coisa totalmente equivocada. Não se pode imaginar que uma CPI foi criada - através do escândalo produzido pelo Marka e FonteCidam, junto com a diretoria de Banco Central - e que isso acabe justificando a candidatura do PMDB ou do PFL. Qualquer grande partido político pensa em ter candidatura própria a presidência da República. Não consigo entender o incômodo dos tucanos. Acho que o PSDB também deve imaginar a possibilidade de ter candidato próprio. AE - Mas isso não fragmenta a base? Barbalho - Fragmentaria se algum partido tivesse lançado nomes. Por isso me parece uma coisa boba vincular a atividade das CPIs ao lançamento de candidaturas à presidência da República. AE - Até que ponto a CPI do Sistema Financeiro pode arranhar a credibilidade do governo já que essa é a grande preocupação do presidente? Barbalho - Eu nunca ouvi isso do presidente. E acho que se alguém sair do Palácio do Planalto dizendo que o presidente está com medo da CPI e de ser arranhado em sua credibilidade, está tomando uma atitude que não ajuda o presidente Fernando Henrique. Os amigos do presidente não podem sair espalhando pelos jornais, no rádio e na televisão que Fernando Henrique tem receio da CPI. Também não posso imaginar que um ato do diretor do Banco Central possa ser vinculado a credibilidade de um governo como um todo. AE - Há quem diga que a baixa popularidade do presidente, como apontam recentes pesquisas, é uma decorrência da CPI, já que a economia começa a se recuperar. Barbalho - A baixa popularidade decorre do processo recessivo em que o País se encontra e de uma taxa de desemprego elevada. Esses números refletem o momento da economia. Agora imaginar que a CPI é responsável pelas dificuldades do governo passa a ser um raciocínio elástico e leviano. AE - Até agora a CPI não chegou em nenhum fato concreto que demonstre o vazamento de informação. Se não conseguir provar nada, o PMDB deixa o governo? Barbalho - Nós não estamos interessados em deixar ou não o governo. Estamos interessados na apuração. Se chegarmos a essa constatação, cumprimos o nosso dever de fiscalizar. A CPI não foi criada como um teste para o PMDB ficar com o governo. Não está em jogo a nossa solidariedade ao governo. Nossa solidariedade ao governo tem sido traduzida ao longo do tempo por atitudes firmes de dar sustentação política e parlamentar nas votações de interesse do Planalto. Nós faltaríamos com o governo, se nós resolvêssemos dizer a população que estamos jogando para debaixo do tapete a acusação de uma irregularidade de um setor da administração pública. O presidente não quer o apoiamento que compromete a sua imagem perante a opinião pública brasileira.

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