Barak ganha eleição. Netanyahu reconhece derrota
Jerusalém, 17 (AE-AP) - Ehud Barak, o mais condecorado militar de Israel que prometeu revier o processo de paz do Oriente Médio derrotou nesta segunda-feira (17) o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que reconheceu a derrota depois que pesquisas de boca-de-urna projetavam uma vitória esmagadora para o líder da oposição.
Com lágrimas nos olhos, Netanyahu, 49 anos, disse que renunciará à liderança do Partido Likud depois da devastadora derrota que também reduziu o poder de seu partido no parlamento.
O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, telefonou para parabenizar Barak. Os dois prometeram restaurar os laços entre EUA e Israel, que foram prejudicados durante o governo Netanyahu. Os palestinos receberam bem a vitória do candidato trabalhista, dizendo que o povo israelense mostrou estar disposto a fazer paz.
Um sorridente líder palestino Yasser Arafat, que assistia à tevê na Cidade de Gaza, disse esperar que Barak leve a paz adiante. "Eu respeito a escolha dessas eleições democráticas e dou meus melhores desejos ao senhor Barak", disse Arafat após encontrar-se com diplomatas norte-americanos para discutir os resultados.
Barak - ao contrário de Netanyahu - não tem descartado a criação de um Estado palestino em partes da Cisjordânia e Faixa de Gaza. Espera-se que ele implemente rapidamente retiradas de tropas da Cisjordânia, que foram suspensas por Netanyahu. Ele também prometeu retirar os soldados israelenses do sul do Líbano em um ano.
Em seu discurso de vitória, Barak ressaltou a necessidade de união após uma divisiva campanha eleitoral carregada de ressentimentos étnicos. "De agora em diante, estamos todos juntos, somos um único povo", afirmou.
Acompanhado de líderes trabalhistas, Barak fez uma homenagem especial a Yitzhak Rabin, assassinado em 1995 por um judeu ultranacionalista que tentava interromper os acordos de terra por paz com os palestinos.
"Se Yitzhak estiver olhando do céu para nós hoje, ele está orgulhoso de nós... e sabe que nós, juntos, levaremos seu legado", disse Barak a partidários que cantavam "Nós faremos a paz".
Milhares de jubilantes israelenses, alguns com garrafas de champanhe, foram à Praça Rabin, onde Rabin foi assassinado.
Como se procurassem curar finalmente os ferimentos daquele traumático momento ocorrido há quatro anos, muitos choraram de alegria, abraçaram uns aos outros, levantaram cartazes com fotos de Rabin e cantaram músicas pacifistas. Milhares gritavam "Salam, salam, salam", que significa "paz" em árabe.
Nas pesquisas de boca-de-urna, a sondagem do Canal 1 dá 58,5% dos votos para Barak e apenas 41,5% para Netanyahu - uma diferença bem maior do que a média de 10 pontos porcentuais apontada pelas pesquisas de intenção de voto. O Canal 2 apurou 57% para Barak e 43% para Netanyahu. A margem de erro de ambas as pesquisas é de três pontos percentuais.
Com 81,6% dos votos apurados, Barak liderava com 55,9% dos votos contra 43,9% para Netanyahu.
O resultado final da votação é esperado para as 8h locais (2h em Brasília), após as urnas de votos de papel dos mais de 7.000 locais devotação serem apuradas.
Barak tem 45 dias para formar um coalizão governista e submetê-la ao Knesset. Se ele for capaz de formar uma coalizão estável - algo que Netanyahu não conseguiu em seus três anos de governo - então ele sentará com mais confiança à mesa de negociações.
A sondagem do Canal Um projetou que os partidos alinhados com Barak ocuparão 56 das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto os aliados de Netanyahu terão um total de 42, com os assentos restantes ficando com partidos centristas e sem posições definidas.
"Quero parabenizar Ehud Barak por sua vitória nas eleições", afirmou Netanyahu enquanto partidários gritavam e aplaudiam em simpatia. "Assim é que tem de ser numa democracia".
Barak, que tinha advertido seus seguidores contra celebrações prematuras, não fez comentários imediatos, mas ativistas do Partido Trabalhista comemoraram intensamente quando foram divulgadas as pesquisas de boca-de-urna logo depois do fechamento das urnas, às 22h locais (16h de Brasília).
Os palestinos saudaram a vitória de Barak.
"A mensagem que o povo israelense enviou nesta noite foi que querem fazer as pazes com os palestinos e que eles querem mudança", disse Saeb Erekat, o principal negociador de paz palestino.
A votação de hoje foi o clímax de uma campanha divisória de cinco montes marcada pelo resentimento étnico. A disputa profundamente pessoal entre os ex-companheiros de armas transbordou numa campanha repleta de ofensas como "mentiroso" e "ladrão".
Durante todo o dia, partidários de Barak prevendo a vitória tiveram dificuldade em acatar o apelo de seu líder para que demonstrassem contenção e não celebrassem prematuramente.
"Aqui vem o próximo primeiro-ministro", gritavam seguidores enquanto um sorridente Barak, de 57 anos, entrava na escola de Jerusalém onde Netanyahu, de 49 anos, havia votado mais cedo.
"Sinto que o povo de Israel quer ver uma nova forma de governo", disse Barak depois de afastar seguranças para saudar partidários. "O povo quer ver mudança, unidade e esperança".
Leah Rabin, a viúva de Yitzhak Rabin que lançou os acordos de paz com os palestinos, estava confiante que Barak iria vencer.
"Agora temos a liderança certa para continuar", afirmou a senhora Rabin, que tem sido uma das maiores críticas de Netanyahu e o tem acusado de criar o clima político fraccioso que levou ao assassinato de seu marido por um ultraortodoxo judeu em 1995.
Durante o dia, Netanyahu repetiu várias vezes que iria surpreender, como na eleição de 1996, quando as pesquisas davam vantagem para o trabalhista Shimon Peres.
O comparecimento às urnas foi dos mais elevados da história do país: cerca de 80% dos 4,28 milhões de eleitores votaram das 7h às 22h. O Exército e a polícia armaram um forte esquema de segurança e barraram a entrada de palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza, mas a eleição transcorreu calmamente.
O processo eleitoral israelense prevê dois turnos caso nenhum dos candidatos conquiste na primeira votação mais de 50% dos votos válidos.
Um dia antes do pleito, porém, três deles renunciaram: Yitzhak Mordechai, do Partido do Centro, Azmi Bishara, da Aliança Nacional Democrática árabe (ambos para facilitar a eleição de Barak no primeiro turno, uma vez que todas as pesquisas mostravam sua rápida ascensão), e Benny Begin, do Partido da Unidade Nacional, ultranacionalista (este, para evitar que os votos conservadores se dividissem entre ele e Netanyahu, reduzindo as chances de reeleição do primeiro-ministro). As renúncias puseram fim à possibilidade de segundo turno.
Netanyahu começou o dia rezando no Muro das Lamentações, em Jerusalém, onde conta com forte apoio. Barak também foi rezar no Muro e inseriu um pedido entre as gigantescas pedras que o formam.
O Comitê Eleitoral Israelense ameaçou tomar medidas judiciais contra o primeiro-ministro se ele não interrompesse imediatamente a propaganda eleitoral durante o dia de hoje - proibida pela legislação nas 24 horas que antecedem a eleição e no decorrer do pleito.
Netanyahu concedeu diversas entrevistas a rádios piratas de ultraortodoxos, provocando queixas dos trabalhistas. O Likud divulgou declaração prometendo que seu líder não daria mais entrevistas.





