Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana) foi a cidade perfeita para a sequência de crimes que mobilizou boa parte do aparato policial do Paraná ontem. Com 25 mil habitantes, era pequena o suficiente para que o prefeito e os três policiais de plantão fossem sequestrados sem grande dificuldade. E com 2,4 milhões de metros quadrados de extensão - um dos maiores territórios municipais do Estado - era grande o suficiente para que uma quadrilha pudesse fugir e se esconder.
A ação criminosa que virou o município norte-paranaense de cabeça para baixo começou pouco depois das 10 horas. Um grupo de oito a 12 homens fortemente armados teria chegado em dois veículos Gol ao quartel da Polícia Militar (PM) de Ortigueira e rendido o comandante, dois oficiais e o prefeito da cidade, Geraldo Magela (PSDB), que estava no local. Alguns dos bandidos trajavam fardas da PM. ''Achei que fossem policiais e, quando encostaram uma arma na cabeça do comandante, ainda pensei que fosse brincadeira'', contou Magela, pouco depois de ser libertado.
Segundo o prefeito, os criminosos agrediram os PMs com tapas e chutes. Segundo o tenente do 3º Batalhão da PM (BPM) de Telêmaco Borba, Nivaldo do Rego, eles portavam várias armas de fogo, incluindo metralhadoras e fuzis. Depois de roubar dois revólveres calibre 38, uma pistola 40 mm e quatro coletes à prova de balas do quartel, a quadrilha colocou os reféns na viatura da PM, uma caminhonete Frontier, e saiu em direção à Delegacia de Polícia Civil. Lá, renderam cerca de dez pessoas, entre policiais e cidadãos comuns, que foram obrigados a entregar dinheiro e pertences, antes de serem trancafiados numa cela.
A quadrilha prosseguiu levando os primeiros reféns e realizou uma série de assaltos na área central do município. Os alvos foram pelo menos duas agências bancárias do Banco do Brasil e Itaú, um escritório do Sicred e uma agência dos Correios. Os valores subtraídos não foram divulgados. Em meio à sequência de roubos, o policial civil Wilson Américo foi baleado na barriga. Segundo colegas, ele tem residência em Ortigueira mas atualmente trabalha em Maringá. De passagem pela cidade, ele teria sido informado do roubo no Itaú e ido ao local para verificar.
O autônomo Robson Carneiro Bueno, 18, acompanhou a ação da praça central e relatou que os bandidos teriam saído do banco atirando para cima. Vários cartuchos de arma de fogo foram recolhidos pela perícia na área. O Gol branco usado pelos bandidos, com placas de Curitiba, também ficou com uma marca de tiro, mas não houve confirmação sobre sua origem. O carro foi abandonado no Centro.
Depois dos assaltos, os bandidos fugiram pela estrada do distrito rural de Briolândia. Ali, tombaram e abandonaram a viatura policial e o outro Gol, em trechos bem próximos. De acordo com o prefeito, eles teriam então roubado a caminhonete de uma família que passava pelo local. Todos os reféns foram largados na estrada. ''O interessante é que eles me chamaram pelo nome e me pouparam de agressões dizendo que era preciso 'respeitar o prefeito''', comentou Magela.
Segundo o comandante do 3º BPM, major Edson Solak, eles trocaram pelo menos duas vezes de veículos. Os bandidos teriam sido vistos ainda em três motocicletas e um Fusca. Também houve notícia de que teriam fugido a pé em direção à Fazenda Mangueira Redonda, em Ortigueira. A última informação obtida pela FOLHA sobre o paradeiro do bando foi que teriam atravessado o Rio Tibagi, numa balsa que partiu da Vila Lambari, no mesmo município, rumo a Sapopema.
Pelo menos 150 policiais de cidades vizinhas e de Apucarana, Londrina, Ponta Grossa e Curitiba se deslocaram para Ortigueira, fizeram buscas e bloquearam estradas vicinais de toda a região. Homens do Comandos e Operações Especiais (CEO), da Capital, especializados em situações críticas, também reforçaram a operação. Um avião e um helicóptero do governo do Estado sobrevoavam a área até o início da noite de ontem. (Colaborou Fernanda Borges)

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