Quatro moradores de rua foram mortos na madrugada de ontem no bairro de Madureira, zona norte do Rio. Cristiano Gomes da Silva e Sérgio Odilon Soares Sobrinho, ambos de 23 anos, Irani Andrade Henrique, de 39 anos, e William ‘‘Da Doze’’, de 14 anos, foram assassinados a tiros quando dormiam em frente a uma loja de móveis, perto do Viaduto Negrão de Lima, com outras 15 pessoas. R. ‘‘Orelhão’’, de 17 anos, sobrevivente da chacina da Candelária, estava no local.
No final da tarde, o delegado-substituto Hermano Rocha, da 29ª Delegacia de Polícia Civil, em Madureira, disse que o traficante conhecido como ‘‘Marcelinho’’ foi o responsável pelas mortes. Rocha informou também que o Instituto Médico Legal constatou que a única mulher, Irani Andrade Henrique, estava grávida ‘‘de dois ou três meses’’.
As testemunhas da chacina contaram a Rocha que, na quarta-feira, haviam sido ameaçadas de morte por ‘‘Marcelinho’’, que controla o tráfico de drogas no Morro São José Operário, perto do Viaduto Negrão de Lima. Uma equipe da 29ª DP foi destacada para prender o traficante, ontem à tarde. Eles foram atrás de Marcelinho acompanhados de uma testemunha para identificar o bandido.
As vítimas faziam parte de um grupo de cerca de 80 moradores de rua que costuma se reunir sob o viaduto. Entre eles há pelo menos sete sobreviventes da chacina da Candelária, em 23 de julho de 1997, quando oito menores de rua foram mortos, segundo disse a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, que trabalha com menores carentes.
Sobrevivente das duas chacinas, ‘‘Orelhão’’, continuava no local do crime ontem pela manhã, entorpecido depois de cheirar cola de sapateiro. ‘‘Orelhão’’ vive há dez anos na rua, segundo Yvonne, e com a saúde debilitada, tossindo muito, sobrevive de pequenos furtos. ‘‘Ele ainda não saiu da rua, assim como todas as crianças que viviam na Candelária, porque ninguém dá uma chance a elas’’, disse a artista plástica.
As versõesO efeito da benzina atrapalhou o sobrevivente de duas chacinas na hora de contar o que ocorreu na madrugada. R. disse apenas que a chacina foi cometida por um homem, armado de pistola, que chegou a pé. Outras testemunhas, sob efeito da cola de sapateiro, deram versões diferentes. Um menor que se identificou apenas como Rogério afirmou que o crime foi cometido por um homem branco, armado de ‘‘pistola cromada’’, que saiu de um Gol vinho, dirigido por outro homem. ‘‘Ele disse para ninguém correr e começou a atirar’’, lembrou.
Outra testemunha afirmou que o carro era um Chevette branco, e os policiais da 29ª Delegacia de Polícia Civil (Madureira) registraram que o carro dos criminosos foi um Monza vermelho. De acordo com o registro policial, os tiros foram disparados por dois homens e o crime foi cometido entre 1 hora e 2h30.
LimpezaDos quatro mortos, apenas Odilon trabalhava, como servente em um clube do bairro. ‘‘Ele cuidava da gente, nos ajudava quando ficávamos doentes e arranjava comida’’, contou uma moradora de rua do bairro que não quis se identificar. ‘‘Ele estava juntando dinheiro para comprar uma casa’’, afirmou. Cristiano havia se unido aos outros indigentes há apenas dois meses, segundo contaram.
Irany saiu de casa este ano, depois de não conseguir mais trabalho como doméstica, segundo sua filha mais velha, Renata Andrade Henrique, de 18 anos, que soube do crime pela manhã, no barraco onde mora com a avó e 11 irmãos no Cachambi, zona norte. ‘‘Quem fez isso com a minha mãe vai pagar também’’, disse Renata, adepta da Igreja Universal do Reino de Deus.
Apontado como namorado de Irani pelos outros moradores de rua, Claudecir Costa de Oliveira, o ‘‘Xandão’’, de 18 anos, afirmou que vai continuar nas ruas. ‘‘Agora eu vou cheirar mais, só de revolta’’, disse Oliveira, também sob efeito da cola de sapateiro.

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