Bandeira confederada vira tema da campanha presidencial Da correspondente Monica Yanakiew
Columbia, 16 (AE) - Durante os sete anos de governo de Bill Clinton, os Estados Unidos enviaram tropas a Somália, Haiti e Bósnia e bombardearam Iraque e Iugoslávia. Mas na campanha para as eleições presidenciais de novembro, ninguem falou muito sobre a participação norte-americana nos conflitos do próximo século.
Os quatro pré-candidatos, com chance de liderar a única superpotência mundial, estão mais preocupados em definir sua posição sobre uma guerra que acabou há 135 anos.
Tudo começou com uma discussão local, iniciada na década de 80 e que dura até hoje: baixar ou não a bandeira, hasteada na cúpula do prédio da Assembléia Legislativa em Columbia, capital da Carolina do Sul. Mas nos últimos meses, acabou convertendo-se num tema nacional, envolvendo até Clinton, e que tem efeitos tanto políticos, quanto econômicos.
De fundo vermelho, a polêmica bandeira tem apenas 13 estrelas, em vez das 50 do bandeira nacional. Representa os estados confederados do sul que, em 1861, se rebelaram contra as pressões do governo federal para restringir o livre comércio e abolir a escravidão.
O movimento de secessão, que resultou na Guerra Civil americana começou justamente na Carolina do Sul - um estado que, apesar de pequeno, poderá definir os rumos da campanha eleitoral esta semana.
No próximo sábado, seus eleitores decidirão qual será seu candidato do Partido Republicano: o governador do Texas, George W. Bush, ou o senador John McCain, do Arizona.
Uma vitória de McCain - o anticandidato que se lançou na campanha sem apoio da máquina partidária - pode favorecer ou prejudicar o Partido Democrata. Se ele ganhar, os republicanos continuarão divididos, fortalecendo os democratas (que estão praticamente unidos em torno da candidatura do vice-presidente Al Gore). Mas as últimas pesquisas de opinião também mostram que McCain tem mais chances para derrotar Gore do que Bush nas eleições de novembro.
Tendo como pano de fundo este cenário político, os pré-candidatos se viram obrigados a entrar no debate sobre a bandeira confederada, manifestando-se a favor de um dos dois lados.
Um grupo, integrado principalmente por brancos, que representam 72% do eleitorado da Carolina do Sul e simpatizam com os conservadores do Partido Republicano, querem mantê-la onde está. Os defensores da bandeira argumentam que ela faz parte da sua história e herança cultural.
Mas a população negra, que detem 27% dos votos e prefere o Partido Democrata de Clinton, quer retirá-la. Para esse grupo, a bandeira é uma lembrança da época em que seus antepassados trabalhavam como escravos nas plantações de algodão e também simboliza o racismo dos anos 60. Os emblemas confederados foram muito usados pela Ku Klux Klan.
Como não contam com os brancos, Gore e Bill Bradley (o outro pré-candidato democrata) imediatemente se pronunciaram a favor da retirada da bandeira. Mas Bush e McCain ficaram numa posição delicada: ambos tentaram evitar comentários, dizendo que cabe à Carolina do Sul tomar a decisão. Ontem um episódio mostrou que não é bem assim.
Num encontro com eleitores, Bush foi abordado pelo único negro presente: o pastor protestante Samuel Ross Lee. Ele exigiu que Bush se manifestasse a favor ou contra a bandeira. Ninguém, disse ele, pode pretender ser eleito presidente se não demonstrar capacidade de liderança. E isso significa ter uma posição a favor de educação, saúde, temas internacionais - mas também questões raciais. Ele foi vaiado pelos brancos da platéia
mas deixou o governador consternado.
A bandeira também mobilizou o empresariado internacional. Em janeiro, a NAACP (uma associação que representa os afro-americanos) iniciou um boicote nacional à Carolina do Sul, para obrigar o estado a baixar a bandeira confederada.
Calcula-se que os turistas negros gastam US$ 280 milhões ao ano na Carolina do Sul. Nos últimos dez anos, o estado passou por uma grande transformação econômica. A indústria de turismo representa US$ 14 bilhões anuais e as multinacionais criaram 200.000 novos empregos. Essas empresas, com sucursais no mundo inteiro, não querem manter fábricas num estado considerado racista.





