Bancos vendem dólar e cotação da moeda cai a R$ 1,99
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terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez, Sílvia Faria e Lu Aiko Otta 
São Paulo, 20 (AE) - A venda de dólares por alguns bancos derrubou os preços do dólar hoje. A moeda chegou a um máximo de R$ 2,010, mas fechou a R$ 1,990, queda de 0,60% ante a véspera. Operadores não sabiam afirmar ao certo se a venda referia-se à entrada efetiva de moeda no País ou a um movimento de realização de lucros dos bancos, aproveitando o preço elevado.
O próprio Banco do Brasil (BB), aliás, teria sido um dos mais ativos na venda de dólares ao mercado, numa atuação bem diferente da adotada até agora. Para honrar compromissos externos do Tesouro Nacional, o BB comprou volumes expressivos de dólares para honrar parte dos R$ 3,2 bilhões de dívidas com o Clube de Paris e bônus Brady, entre outras, disseram operadores.
O dólar ficou abaixo dos R$ 2,00 num dia de fortes oscilações, mas melhora das expectativas. A ausência de notícias ruins dos EUA - a Bolsa de Nova York fechou em alta de 1,84% - e a importância menor que o mercado deu à inflação doméstica melhoraram o cenário
Projeções - As perspectivas até o fim do ano não indicam mudanças na atual trajetória do dólar, segundo economistas. Nos últimos dias, vários bancos e consultorias revisaram suas projeções de fechamento do ano para o dólar, e os números mais frequentes oscilam entre R$ 1,95 e R$ 2,00. "O volume de saídas de recursos é grande e ainda há remessas de lucros por empresas e bancos", disse o diretor do Banco Liberal, Luis Quintãns. A pressão vai ocorrer, disse ele, apesar da antecipação tanto de pagamento de dívida como das remessas. Nas contas do Liberal, o total de vencimentos de dívidas privadas em dezembro é de US$ 1 3 bilhão, cerca de US$ 20 milhões a mais do que outubro. Segundo projeções de mercado, outubro deve fechar com um fluxo negativo de US$ 2,5 bilhões, rombo que cairia para US$ 500 milhões em novembro e subiria para US$ 1,6 bilhões em dezembro.
O diretor do Liberal diz que o banco previa um dólar a R$ 1,90 no fim do ano, mas agora espera algo entre R$ 1,95 e R$ 2,00, mesmo intervalo da Tendências Consultoria Integrada. De acordo com o consultor Roberto Padovani, a partir do momento em que as expectativas vão se deteriorando, o prêmio de risco aumenta. O Unibanco também está revisando suas projeções, que até então estavam em R$ 1,90 e o banco Santander elevou a estimativa de R$ 1,85 para R$ 1,95.
O que poderia melhorar o cenário seria o empréstimo de US$ 2,2 bilhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
aprovado ontem na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Sem ele, o BC ficaria, acredita o mercado, "amarrado", sem poder vender dólares para derrubar as cotações, pois estaria comprometido o cumprimento da meta com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Banco Central - O chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Altamir Lopes, disse hoje, em Brasília, que o BC decidiu não intervir no mercado, apesar das elevadas cotações do dólar, porque o IPCA deve ficar em 7,5% neste ano, abaixo da meta de inflação de 8% prevista no acordo com o Fundo.
"O BC não está intervindo porque não quer", disse Altamir Lopes, contestando informações de que a autoridade monetária estaria "engessada" por ter esbarrado no piso das reservas internacionais líquidas (descontada a dívida com FMI, BIS e Banco do Japão) de US$ 22,2 bilhões em outubro. Segundo ele, as reservas líquidas estão em US$ 23,35 bilhões e não há mais compromissos externos no mês, o que significa existência de folga em relação à meta.
O chefe do Depec observou que o mercado tem de se convencer de que o objetivo do BC é perseguir a meta inflacionária, cujo cumprimento está praticamente garantido. Ele nega que a alta do dólar possa comprometer a meta de inflação, em decorrência do repasse dos custos aos preços finais. A desvalorização, como já foi observado, não afetou a inflação, disse Altamir. Consequentemente, o BC não vê razões para intervir no câmbio. As recentes elevações do dólar, explicou Altamir Lopes, são "naturais" no período que concentra volumes elevados de pagamentos de dívidas em moeda estrangeira. Ainda assim, há folga nas reservas.
A mesma folga se repetirá, segundo ele, em novembro e dezembro, cujas metas de reservas líquidas são US$ 22,6 bilhões e US$ 22,3 bilhões, respectivamente. Para o início de novembro, já está assegurada a entrada de US$ 520 milhões de garantias de títulos externos, liberadas em recente operação de renegociação feita pelo BC. Em dezembro, o BC sacará US$ 1,1 bilhão do empréstimo de US$ 2,2 bilhões feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Como não haverá tempo hábil para internalizar a totalidade dos US$ 2,2 bilhões do BID, já está acertado com o FMI que o piso das reservas líquidas será reduzido em US$ 1 bilhão em dezembro. Então, a meta passará a US$ 21,3 bilhões, liberando mais reservas para uso livre do BC.


