Frankfurt, 11 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, obtiveram hoje um compromisso formal de manutenção das linhas de crédito comerciais e interbancárias nos níveis atuais, pelos próximos seis meses, dos principais bancos credores do Brasil nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Suíça, áustria e Holanda. A informação foi dada por Malan hoje à noite. O compromisso deverá ser confirmado amanhã em comunicados conjuntos do governo e dos bancos, a serem divulgados simultaneamente em Nova York e Frankfurt. Segundo Malan, os comunicados "sinalizarão a intenção dos bancos de responder de maneira positiva ao pedido brasileiro" de manutenção e restauração das linhas de crédito.
O ministro da Fazenda disse que o governo espera conseguir a mesma garantia dos bancos com os quais ele próprio e Armínio Fraga se reunirão amanhã em Paris e Londres, respectivamente. Segundo o diretor da área externa do Banco Central, Daniel Gleiser, as instituições financeiras contatadas no "road show" do novo programa econômico brasileiro, que inclui também bancos japoneses, representam 85% dos empréstimos de curto e médio prazo da banca internacional privada ao País.
As autoridades pretendem conversar com os demais bancos credores numa segunda rodada de contatos. "Chegamos a um entendimento", disse Malan. "Nós estamos apostando que muitos bancos vêem seu relacionamento com o Brasil numa perspectiva de médio e longo prazos e vários deixaram isso claro durante as reuniões, ou seja, disseram que estão dispostos a caminhar na direção de aumentar (as linhas de crédito)", afirmou o ministro. "O que nós queríamos é assegurar o mínimo de que precisamos para mostrar que, com isso, está financiado o balanço de pagamentos brasileiro em 1999", explicou. "Isso, nós asseguramos". Malan disse que, em contraste com o "road show" de novembro do ano passado, desta vez o governo "foi mais específico" na apresentação do que esperava dos bancos.
O compromisso formal obtido dos credores afasta, em princípio, o risco de uma repetição do que ocorreu no final do ano passado, quando alguns bancos chegaram a assumir um compromisso verbal de manter as linhas de crédito, mas na verdade as reduziram por temor de virem a ser forçados por seus governos a participar um esquema involuntário de financiamento do Brasil.
A expectativa brasileira - indicou o ministro - é que os bancos vão além do compromisso que assumiram hoje e restaurem gradualmente as linhas de crédito ao nível de junho do ano passado, quando iniciaram uma retirada estimada de cerca de US$ 20 bilhões, ou cerca de um terço.
O retorno desses recursos é vital para o País conseguir financiar as exportações e alcançar o saldo comercial de US$ 11 bilhões este ano, que é uma das premissas do programa de estabilização negociado com o FMI.
"O que nós conseguimos hoje e esperamos conseguir amanhã é uma demonstração clara de que o Brasil não terá problemas de financiamento de balanço de pagamentos este ano", disse Malan. "Isso ficando claro, abre-se a possibilidade de que haja uma gradual recomposição dessas linhas ao longo do ano". Em outras palavras: garantido o financiamento no nível atual, qualquer novo crédito que entrar representará um aumento.
Embora o compromisso formal dos credores de preservação das linhas tenha sido voluntário, a coreografia montada para convencê-los a renovar os empréstimos que já têm no Brasil incluiu um forte envolvimento dos governos do Grupo dos Sete e dos organismos financeiros internacionais. Na verdade, ela foi calculada para reiterar o caráter crucial da participação dos credores privados para o sucesso do programa de estabilização brasileiro, conforme afirmou, em tom de ameaça velada, o diretor-geral do FMI, Michel Camdessus, no comunicado divulgado no início da semana em que confirmou sua intenção de recomendar o acordo com o Brasil à diretoria da instituição, em reunião marcada para o próximo dia 30.
Malan iniciou seus contatos em Frankfurt com uma visita ao presidente do Bundesbank, o BC alemão, Hans Tietmeyer. Depois
o ministro fez visitas aos três maiores bancos privados do país
o Commerzbank, o Dresdner e o Deutsch. À noite, ele encontrou-se com altos executivos de catorze bancos alemães e de representantes de bancos austríacos, holandeses e suíços num jantar oferecido pelo Deutsche Bank e que contou a a significativa presença do vice-presidente do Bundesbank, Jurgen Stark. A exemplo do que ocorreu em Nova York, onde a conversa com banqueiros se deu na sede regional do Federal Reserve, o BC dos EUA, os encontros que Malan e Armínio terão amanhã com os credores em Paris e Londres ocorrerão nas sedes dos bancos centrais francês e inglês. O Citibank, o Deutsche, o Paribas, HSBC e o Sumitomo atuarão como coordenadores do esforço de vigilância mútua para garantir que todos os credores honrem o compromisso de manter as linhas de crédito a seus clientes brasileiros.
De acordo com o ministro da Fazenda, esta foi umas das preocupações que os banqueiros manifestaram em suas perguntas durante as reuniões. Seu temor é o "free rider", ou seja, um banco que decida deixar o barco, obrigando os demais a assumir sua parte do risco. A dívida interna foi também tema de indagações dos credores. Daniel Gleiser acrescentou que os banqueiros pediram também explicações detalhadas sobre as metas fiscais do programa. Não houve perguntas sobre privatização.
Perguntado sobre o que deu errado, Malan disse que apontou quatro causas para explicar aos bancos o processo que levou à crise de confiança e obrigou o governo a procurar novamente os credores do País, pouco mais de quatro meses depois do primeiro road show: a rejeição da reforma da previdência do setor público no início de dezembro, o adiamento da votação do CPMF, a moratória parcial declarada por Minas Gerais e a forma como a mudança do regime cambial foi feita. "Expliquei a eles que apesar da complexidade do processo legislativo brasileiro, a reforma da previdência foi aprovada, o aumento do CPMF também já passou em primeira votação e deve ser confirmado na semana que vem, nenhum outro Estado seguiu o exemplo de Minas Gerais, o País tem hoje um novo regime cambial e está cumprindo seus compromissos fiscais".

mockup