Porto Alegre, 17 (AE) - O presidente do conglomerado financeiro Meridional, Paulo Ferraz, disse hoje que os bancos brasileiros estão trabalhando com "colchões" de provisões para suportar o aumento da inadimplência que será provocada pela desvalorização cambial. De acordo com ele, porém, ainda é difícil antecipar com precisão os reflexos da queda do real sobre as operações atreladas ao dólar, como Adiantantamento de Contratos de Câmbio (ACC) e eurobônus.
O executivo, que falou a empresários gaúchos na Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul (Federasul), disse que o efeito líquido em reais da dasvalorização sobre os passivos em dólar dos bancos nacionais foi nulo. As instituições, segundo ele, não estavam apostando na mudança do câmbio, mas haviam feito suas operações de hedge no ativo em volumes um pouco superiores aos passivos para "evitar descasamento em caso de desvalorização".
Ferraz ressalvou que apesar dos ganhos expressivos em reais obtidos em janeiro, os bancos estrangeiros podem ter sido afetados pela queda do real porque seus patrimônios são indexados ao dólar. Conforme ele, este indicador é o que conta para os balanços e portanto essas instituições, diferentemente das brasileiras, fizeram seu hedge sobre o patrimônio e não sobre o passivo.
O presidente do Meridional explicou ainda que a escassez de créditos de longo prazo no mercado financeiro deve-se, entre outros fatores, à migração das aplicações para o curto prazo provocada pela insegurança dos investidores. "O descasamento de prazos quebra um banco", comentou. De acordo com ele, os compulsórios "elevadíssimos" estabelecidos pelo Banco Central e as taxas de inadimplência crescente são fatores que aumentam o custo do dinheiro, retraindo os financiamentos.
Ferraz considerou uma "vitória" a sinalização obtida pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e pelo presidente do BC, Armínio Fraga, durante "road-show" pela Europa, de que os bancos estrangeiros vão manter suas linhas de crédito ao Brasil no patamar de US$ 28 bilhões registrado em fevereiro. "Os financiamentos internacionais estão praticamente cortados para o País desde setembro de 1998, com a crise da Rússia, e a manutenção das linhas de fevereiro é melhor do que zero porque elas pararam de cair", disse.
O executivo não quis avaliar se há "demanda" ou "viabilidade" para a privatização do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Na opinião dele, é necessária uma "racionalização" do sistema financeiro federal para redução de custos e isto já vem sendo discutido há algum tempo pelo governo. "Existe uma superposição muito grande entre a Caixa e o BB", comentou.
A venda das duas instituições, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), estaria sendo estudada pelo governo. Ferraz
entretanto, disse que o Bozano,Simonsen, principal banco de investimentos do País e parte do conglomerado Meridional, nunca foi sondado por qualquer interessado para avaliar a possibilidade de privatização de qualquer uma delas.

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