Bancos temem competição com lotéricas e supermercados
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terça-feira, 03 de agosto de 1999
Por Rodney Vergili 
São Paulo, 04 (AE) - Os banqueiros nacionais estão preocupados com a concorrência que começa a ser oferecida por outros prestadores de serviços, como as lotéricas, que assumem tarefas tidas como típicas do sistema financeiro. As lotéricas já recebem pagamentos de contas das concessionárias de serviços públicos. A Federação Nacional de Bancos (Fenaban) aponta como concorrentes também Correios e supermercados.
A competição com as modalidades alternativas de prestação de serviços é o principal argumento que o presidente da Fenaban, Roberto Setubal, utiliza para fustigar a atual legislação trabalhista, defendendo uma flexibilização que altere principalmente a jornada de trabalho dos bancários, de seis horas por dia.
Para Setúbal, essa flexibilização é fundamental para que os bancos nacionais possam competir não só com novos agentes que aportem ao segmento de serviços financeiros, mas também com as instituições estrangeiras que têm aumentado sua presença no País.
Por isso, se depender dos bancos o aumento da jornada de trabalho deve ser um dos principais pontos de discussão das negociações trabalhistas deste ano, conforme Setúbal sinalizou hoje, ao receber a pauta de reivindicações da Confederação Nacinal dos Bancários (CNB), entidade sindical ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Preocupadas principalmente com a reposição das perdas salariais, as lideranças sindicais admitem mudança na jornada de trabalho, mas que ela seja reduzida para possibilitar a criação de dois turnos e a geração de mais emprego.
No entanto, Setúbal reitera suas preocupações, situando-se no exemplo das lotéricas e a concorrência que oferecem aos bancos ao receberem contas de concessionárias de serviço público. Ele argumenta que essas operadoras, recentemente privatizadas, são geridas por controladores ou sócios estrangeiros que vão procurar direcionar os serviços a prestadores que oferecerem menor custo. O dirigente da Fenaban afirma que o custo dos bancos no recebimento de contas de luz e telefone nas agências é de R$ 1,16, enquanto que as lotéricas, que não têm os mesmos encargos trabalhistas, realizam a operação por R$ 0,40.
Quanto maior for o custo dos bancos, maior será a tendência de terceirização das atividades financeiras, insiste Setúbal, para quem a atual legislação não está adaptada à virada do milênio. "Não faz sentido aproximarmos do século 21 com os bancários trabalhando apenas seis horas por dia e 30 horas por semana. Jornada de apenas seis horas não existe em nenhum lugar do mundo", sustenta. "Não é viável economicamente pagar dois turnos para ampliar o horário de atendimento ao público", acrescenta o presidente da Fenaban diante da reivindicação de redução de jornada apresentada pelos bancários. Para Setubal, os bancários representam uma elite entre os trabalhadores com a jornada de seis horas.
João Vaccari Neto, presidente do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, contra-argumenta que "a despeito da crise econômica os lucros dos bancos estão crescendo a cada ano". Vaccari repele a classificação de elite para a categoria. "Se há uma elite entre os bancários, ela está nos executivos da alta administração dos bancos."
Vaccari diz que preocupa o problema do desemprego, mas mais ainda "o emprego precário". Sérgio Rosa, presidente da Confederação Nacional dos Bancários, acrescenta que a terceirização põe em xeque a qualidade e a segurança dos serviços. Ele denuncia que a utilização indiscriminada de promotores de vendas tem provocado furtos de documentos e abertura descontrolada de informações sigilosas para funcionários de empresas não-bancárias.


