São Paulo, 29 (AE) - As instituições que lideram a lista de investidores que compraram contratos de dólar no mercado futuro da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) na véspera da mudança na banda cambial alegaram hoje a perspectiva de um ajuste mais acentuado no preço da moeda americana para equilibrá-lo ao real, que estava sobrevalorizado.
O banco norte-americano J.P.Morgan repudiou as insinuações de que se teria beneficiado de informações privilegiadas para obter ganhos no mercado futuro de câmbio com a desvalorização do real. A subsidiária da instituição, Morgan Guaranty Trust of New York, lidera a lista de investidores que compraram contratos futuros de dólar na Bolsa da BM&F no dia 12 de janeiro, dia anterior às mudanças na banda cambial. De acordo com o relatório que mostra o movimento das operações realizadas na BM&F, o Morgan Guaranty adquiriu, nesse dia, 7.725 contratos futuros de dólar.
A assessoria de imprensa do banco esclareceu que o J. P. Morgan faz, tradicionalmente, operações nos mercados futuro, à vista e de derivativos, dentro das normas brasileiras. O volume de negócios sempre foi compatível com as práticas do banco nesses mercados, segundo disseram assessores, ao informar que o banco já prestou esclarecimentos ao Banco Central (BC) por ocasião da mudança na política cambial. "E continua à disposição das autoridades para prestar mais esclarecimentos."
O diretor de apoio operacional do Bozano, Simonsen, Jurandyr Lopes, garantiu que a instituição não ganhou com operações de câmbio dias antes da desvalorização do real. Lopes disse não fazer parte da área que decide a estratégia da instituição no mercado de câmbio, mas destacou que no setor operacional não teve conhecimento de apostas na desvalorização do real por parte da tesouraria. "Caso contrário, o banco estaria com um bom lucro", observou.
Quanto a possíveis apostas na desvalorização por parte dos fundos administrados pelo Bozano, Lopes disse não ter certeza sobre as posições tomadas, mas afirmou acreditar que também não houve ganho nessa área. O Bozano, Simonsen também está entre os maiores compradores de dólares.
O empresário Antônio Ermírio de Moraes considerou normal o fato de o Banco Votorantim ter feito contratos de câmbio no dia 12 de janeiro. "Esses contratos não foram para mim ou para o meu irmão José Ermírio, foram para clientes da instituição que normalmente realizam esse tipo de negócio", argumentou.
Ele considerou exagerada a informação de que o Banco Votorantim teria realizado a compra de 6 mil contratos, embora afirme que não se lembra da quantidade exata das operações. Ermínio sustentou que o número de negócios foi bem menor. "A compra de moeda antes de a cotação disparar foi uma decisão tomada diante da previsão de que tanto o dólar quanto os juros subiriam, como reação inevitável do governo para evitar a perda constante de reservas e minimizar a crise pela qual passava o País", disse o diretor do Banco Boavista Interatlântico, José Luiz Miranda. A instituição está entre os dez maiores compradoras de dólar no dia 12 de janeiro - adquiriu 2 mil contratos -, de acordo com o relatório sobre a movimentação das operações de câmbio futuro realizadas na BM&F e encaminhado à CPI.
Miranda informou que o banco comprou "uma quantidade pequena" de dólares para fazer o hedge (seguro contra oscilações de preços) dos investimentos do banco no mercado futuro de juros. "Estávamos expostos no mercado futuro de juros", alegou Miranda. "Se os juros explodissem, iríamos perder", afirmou. O banqueiro disse que não se lembra do total de dólares comprados pela instituição.
O diretor- presidente do Banco Stock-Máxima, Antônio Geraldo da Rocha, disse que a tesouraria do banco "não apostou nenhum lote sequer" no mercado de câmbio. "Tradicionalmente, a tesouraria do banco já não apostava grandes lotes no mercado de câmbio - o máximo não chegava a 200", assegurou. "Desde outubro, decidimos cancelar qualquer operação nesse mercado, pois, com o nosso perfil, teríamos pouco para ganhar em relação ao risco de perder" , ressaltou o diretor do Stock-Máxima.
Rocha, no entanto, afirmou que a Stock-Máxima intermediou, como corretora, várias operações de compra de dólares por parte de grandes bancos, dias antes da desvalorização do real. Daí o volume divulgado alcançar 2,3 mil contratos de dólar. O executivo não quis citar nomes, mas destacou que vários bancos reverteram suas posições de vendido para comprado, ou passaram a comprar dias antes de o dólar disparar.
O executivo chamou atenção, no entanto, para o fato de os bancos estrangeiros serem obrigados a fazer aplicações para proteger o patrimônio ou passivos - o hegde - e, assim, garantir a remessa de seus lucros para suas matrizes. " Temos de levar esse fato em consideração, mas mesmo assim alguns bancos tiveram ganhos acima desse porcentual de hedge", afirmou Rocha.

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