Washington, 30 (AE) - A aprovação pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) da nova e mais dura versão do programa de estabilização fiscal do Brasil, negociada após a desvalorização do real e a mudança do regime cambial, era esperada na reunião que os 24 diretores executivos da instituição iniciaram hoje à tarde. A decisão, prevista para o início da noite em Washington, representa um voto de confiança da comunidade financeira internacional na política econômica brasileira e era o sinal que bancos credores e investidores vinham esperando para, gradualmente, reorientar para o Brasil uma parte das dezenas de bilhões de dólares que retiraram do País na crise que forçou o governo a desvalorizar a moeda e deixar ao mercado a tarefa de determinar seu valor.
Pouco antes do início do encontro, o vice-presidente do Citibank, William R. Rhodes, divulgou uma declaração, em Nova York, informando que "os bancos concordaram em manter suas linhas comerciais e interbancárias em apoio ao programa econômico do governo brasileiro".
Pedido nesse sentido foi feito pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga Neto
durante o giro que fizeram pelos centros financeiros internacionais. Rhodes, que presidiu o comitê de bancos credores do Brasil em pelo menos três renegociações da dívida externa entre 1983 e 1994, aceitou a incumbência de coordenar a resposta dos bancos à demanda brasileira de manutenção voluntária de pelo menos US$ 28 bilhões em créditos de curto e médio prazo - o nível de 28 de fevereiro último. A renovação dessas linhas vem sendo monitorada diariamente pelo Banco Central.
O destinatário principal da declaração divulgada por Rhodes foi o próprio FMI. Ao anunciar o acordo sobre a revisão do programa de estabilização fiscal, no final do mês passado, o diretor-gerente do Fundo, Michel Camdessus, sublinhou que a participação dos bancos no financiamento externo do Brasil seria uma consideração central na decisão dos diretores executivos da instituição de reafirmar seu apoio ao País. A razão é que, sem uma participação expressiva dos bancos, os recursos do FMI não seriam suficientes para evitar um agravamento da crise.
"O acordo dos bancos é a expressão da confiança do setor privado no fortalecido programa econômico do Brasil", disse hoje Rhodes. "Ele deve pavimentar o caminho para apoio adicional dos setores público e privado e para o retorno do Brasil ao mercado internacional de capitais". Uma fonte financeira observou que o crescimento das reservas brasileiras nos últimos dias ajudou a reforçar a mensagem de Rhodes ao "board" do FMI.
Além de recolocar o acordo do Brasil com o FMI nos trilhos, o efeito prático do endosso da instituição será o desembolso, nos próximos dias, de cerca de US$ 8,6 bilhões. O dinheiro, que representa um acréscimo de mais de 20% às atuais reservas cambiais, correspondente à segunda parcela do empréstimo de US$ 41,5 bilhões que o País obteve em dezembro passado da comunidade financeira oficial. Além do próprio FMI, contribuíram o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e vinte países ricos, por meio do Banco Internacional de Compensações, o BIS. Se o País cumprir as metas trimestrais de desempenho que negociou, terá acesso a novas parcelas, menores, em junho e setembro.
Em recente entrevista ao jornal financeiro francês "Les Echos", Camdessus rechaçou a crítica frequente sobre os custos sociais que o programa do FMI terá para o Brasil, afirmando que não solicitou "nenhum corte orçamentário nas despesas sociais brasileiras". Segundo ele, "a atual recessão brasileira é resultado de erros cometidos pelos dirigentes desse País no ano passado e não de programa imposto pelo FMI". Camdessus acrescentou que "os brasileiros vão pagar um preço muito elevado por suas tergiversações econômicas durante e período eleitoral e pós-eleitoral". O programa de estabilização negociado com o FMI em novembro previa uma contração de 1% do PIB este ano. O acordo aprovado hoje projeta uma retração de até 4% - razão provável da advertência que as autoridades econômicas tem feito sobre o risco de se tomar as boas notícias das últimas semanas com demasiado otimismo.

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