O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fechou ontem uma agência do Banespa no Pontal do Paranapanema (extremo oeste de São Paulo) e ameaça atear fogo nela, se o banco, em represália, emperrar financiamentos para a próxima safra.
‘‘Caso a diretoria do banco venha a impedir novos financiamentos da Gleba 15 de Novembro, em função desta manifestação, o MST sabe o que fazer, e uma das coisas, pela revolta dos trabalhadores, é pôr fogo na agência’’, disse o dirigente Walter Gomes da Silva, 34.
A frase foi dita ontem ao gerente da agência de Porto Primavera (distrito de Rosana), Fernando Cesar Valença, durante tentativa de renegociação de uma dívida de assentados. O gerente havia alertado Gomes de que o bloqueio poderia comprometer o financiamento da próxima safra.
O prazo para aprovação de projetos para o plantio termina no próximo mês. Cerca de cem assentados passaram o dia em frente ao banco. Doze PMs fizeram a segurança, com ordens para impedir o bloqueio. Para evitar confronto, os assentados disseram que, como clientes, ocupariam as dependências do prédio e impediriam o expediente. O banco preferiu não abrir para o público. Cerca de 700 clientes deixaram de ser atendidos.
Gomes, que assumiu provisoriamente a liderança do movimento na região até o julgamento de José Rainha Júnior, disse que o bloqueio vai continuar até serem atendidas as reivindicações.
O MST quer renegociar uma dívida de cerca de R$ 800 mil. A primeira parcela, de 70% do valor, vence no próximo mês. As outras duas, anuais, são de 20% e 10%. Os assentados se propõem a pagar 50% no primeiro ano, 25% no segundo e 25% no terceiro.
Silva e o presidente da Cocamp (cooperativa dos sem-terra), Valmir Chaves, conversaram por mais de uma hora, pelo telefone, com a diretoria do departamento de crédito rural do banco em São Paulo. Não houve acordo.
Após um encontro entre Rainha e o ministro Raul Jungmann (Política Fundiária), ontem em Brasília, o MST suspendeu o bloqueio que aconteceria na agência do Banco do Brasil em Teodoro Sampaio (SP). Logo pela manhã, a PM deslocou 15 homens para proteger a agência, enquanto um grupo de 70 sem-terra se mobilizava no acampamento Santa Clara para realizar o bloqueio.
O MST quer a liberação de R$ 650 mil para a compra de uma processadora de frutas, um barracão e dois caminhões, mas se nega a cumprir as instruções do Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária (Procera), cujas verbas são intermediadas pelo BB.
Segundo o gerente da agência, Ronald Allen Coulter, o BB vai emprestar o dinheiro, caso Jungmann aceite flexibilizar as regras. O dinheiro, de acordo com o gerente, poderá estar disponível a partir de hoje, com o compromisso de o MST apresentar os documentos em 30 dias.
No noroeste do Paraná, homens fortemente armados, equipados com rádios e binóculos com visão noturna, estão reforçando a segurança de várias fazendas. Os grupos, com entre 15 e 20 homens encapuzados, foram contratadas pelos fazendeiros, que temem novas invasões. A área próxima ao município de Querência do Norte, no noroeste, tem 22 fazendas ocupadas pelo MST, segundo o próprio movimento.
O clima é muito tenso, segundo os sem-terra, principalmente depois das declarações dos encapuzados à televisão, na quarta-feira, dizendo que a ordem é impedir o acesso de invasores a todo custo. ‘‘Temos ordem de atirar até para matar’’, afirmou um segurança, exibindo fuzis automáticos e muita de munição.
As milícias trabalham nas fazendas 24 horas por dia. Segundo o MST, há mais de 20 percorrendo a região. Produtores rurais procurados ontem não quiseram falar sobre o assunto.
Uruguai Líderes dos sem-terra no Rio Grande do Sul reuniram-se ontem com o cônsul-geral do Uruguai no Estado, Federico Xiviller, para afirmar que não há hipótese de sem-terra gaúchos invadirem fazendas uruguaias. O cônsul disse acreditar que os sem-terra não pretendem invadir áreas do seu país. (Leia mais sobre o assunto no caderno Folha Cidades)

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