São Paulo, 25 (AE) - O atraso na privatização do Banespa decorrente dos desdobramentos da multa de R$ 2,8 bilhões da Receita Federal exige uma atitude mais agressiva do banco na busca de fontes de receitas. O banco já promoveu há duas semanas uma redução de taxas nas principais linhas de crédito para pessoas físicas, que em alguns casos chegou a 38%. Tanto no crédito pessoal (CDC) como no cheque especial, as taxas, hoje, são as mais baixas do mercado. A estratégia é atrair novos clientes e tentar aumentar a carteira de crédito para compensar os ganhos menores com a carteira de títulos federais herdada da época da renegociação da dívida de São Paulo com a União, em 1997, quando banco foi federalizado.
O Banespa financiava essa dívida para o Estado no mercado financeiro. Quando saiu o acordo, o banco recebeu títulos federais para liquidá-la no sistema financeiro e ainda ficou com boa parte dos papéis em caixa para garantir a liquidez (disponibilidade de recursos). Pelo balanço de 30 de junho, a carteira de títulos somava R$ 8,1 bilhões. Os juros altos proporcionaram rentabilidade elevada da carteira de títulos federais e preservou o resultado do banco. Nesse período, a instituição reduziu custos e operou sem agressividade para não comprometer o resultado, diante da expectativa de uma rápida privatização. Mas existe um limite para os chamados ganhos de tesouraria.
Analistas dizem que determinar o ponto exato em que o banco deixa de ser lucrativo em decorrência da queda das taxas é tarefa que envolve uma série de premissas. De qualquer forma, de acordo com Bruno Pereira, analista do BBA-Icatu, com uma taxa básica (Over-Selic) próxima a 15% ao ano, o Banespa começaria a enfrentar dificuldades para produzir retornos "decentes" sobre o patrimônio - um dos principais indicadores de rentabilidade dos bancos. Isso, considerando vários fatores, como a manutenção da atual mistura de ativos da instituição, a inexistência de resultados operacionais relevantes, a preservação do valor de mercado das ações da Cesp - parte importante do ativo - e, finalmente, que a estrutura de custos não se altere.
A situação do banco naturalmente não é crítica, mas exigiu mudança de estratégia com os sucessivos adiamentos da privatização. "No primeiro semestre, já é possível observar a retomada de outras fontes de negócios", disse Pereira. Segundo ele, o banco continuou ativo no crédito rural, sendo um dos maiores emprestadores do País nessa modalidade, e aumentou em 10 8% o volume de operações do chamado crédito geral, que envolve especialmente pessoas físicas, cuja carteira é uma das mais rentáveis. Na prática, observa Pereira, o banco tem espaço para emprestar sem correr grandes riscos de ter perdas com inadimplência. Isso porque a carteira de empréstimos é pequena (R$ 3,9 bilhões) e o índice da Basiléia é o mais alto do mercado
de 41,8%, demonstrando a baixa exposição do banco ao risco nas operações de crédito.
Para se ter uma idéia, o índice da Basiléia do Itaú é de 24%. "O banco pode ampliar a concessão de empréstimos aos bons pagadores", justificou o analista. O governo federal admite que
na melhor das hipóteses, o leilão de venda do banco foi transferido do primeiro trimestre do próximo ano para até o fim do segundo trimestre. No entanto, a diretoria vai entrar com recursos em várias instâncias e o processo pode arrastar-se por mais de um ano só no Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Se chegar a recorrer na Justiça comum contra a decisão da Receita, fica difícil prever quando a novela vai ter fim.
Para evitar que os atrasos comprometam o resultado do banco, o presidente do Banespa, Eduardo Guimarães, admitiu a hipótese de criar-se um modelo de venda que não considerasse a multa, em recente depoimento na Comissão de Orçamento e Finanças da Assembléia Legislativa. Sem detalhar os mecanimos possíveis, sabe-se que uma das alternativas é separar a "parte boa" da "ruim", como ocorreu com o Banerj. Para analistas do mercado, qualquer decisão nesse caminho vai ter de levar em conta os minoritários, entre eles, o governo de São Paulo, que já anunciou a possível adoção de medidas judiciais contra a decisão da Receita. (C. S. R.)

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