Paris, 07 (AE) - Honoré de Balzac foi um escritor tardio: nascido em Tours, no dia 20 de maio de 1799, seu primeiro livro verdadeiro - Les Chouans - foi publicado em 1829, quando tinha 30 anos. E, como iria morrer jovem, em 1850, com 50 anos, Balzac contou com apenas 20 anos para escrever sua obra.
Um prodígio, se repararmos na dimensão desta obra - 40 volumes densos (cerca de 100 romances) , centenas de artigos, 1.600 cartas, tratados filosóficos.
E isso ainda não é tudo: Balzac foi um bom garfo, amou as mulheres, viajou aos confins da Europa, foi à Sicilia para encontrar (sem sucesso) peças de prata dos romanos, lançou revistas literárias que morriam, impressoras, casas editoras que também morriam, apresentou-se sem sucesso como candidato nas eleições para deputado, não conseguiu entrar na Academia Francesa, viveu como um "boa vida", com tilburis, cavalos adornados com penachos, empregadas domésticas e uma bengala com empunhadura de prata, deslumbrou seus amigos com sua eloquência torrencial.
Como foi possível amontoar tanta coisa nesses 20 anos? Na verdade, toda essa geração era assim: glutões, gigantes, insaciáveis: Victor Hugo , com 80 anos de idade, foi supreendido pela polícia junto com uma jovem prostituta no Bois de Boulogne. Alexandre Dumas chega uma noite da Itália, após uma viagem extenuante, dorme com uma de suas amantes, come e senta-se imediatamente à sua escrivaninha e trabalha até o raiar do dia. Jules Michelet levanta-se todas as manhãs às 3h, enquanto Paris ainda está mergulhada no sono, e reinventa para nós os brilhos e as trevas da História da França. Balzac pertence a esta raça: a desses seres fantásticos.
Uma vida assim supõe reservas infinitas de energia. No caso de Balzac (mas também de Michelet e Hugo), há mais uma coisa: uma estranha semelhança entre a obra e aquele que constrói essa obra
a tal ponto que se torna impossível distinguir as duas camadas: em maio de 1850, Balzac cai de cama e não se levantará mais. Passa um verão atroz (sofre sufocamentos). É visitado pelos médicos mais famosos.
Mas, em sua agonia, Balzac pede com insistência, quase com cólera, que se avise o doutor Horace Brianchon. Quem é o doutor Brianchon? Um médico inventado e extremamente amado por Balzac, pois este personagem secundário reaparece em 30 de seus romances. Assim, no momento da morte, o escritor acha que somente Brianchon seria capaz de salvá-lo.
Como se poderia dizer de forma melhor que o mundo imaginário criado por Balzac era mais real que o próprio mundo real?
Estas ligações entre Balzac e sua obra são constantes: a família de Balzac, sua infância, poderiam ser as destes milhares de personagem que entretecem a Comédie humaine, esta epopéia de energia social (com inclinação para a burguesia) na França do século 19. Seu pai é um pequeno empregado de um cartório de notas. A mãe uma simples bordadeira. E, logo depois, surge o drama: embora o pai seja um homem de bem, embora muito idoso, sua mãe, muito jovem, jamais se interessará por seu filho Honoré
por estar inteiramente dominada pelo amor ao seu outro filho. Outros sofrimentos: a morte de uma irmã, quando Honoré era ainda muito jovem.
Honoré vive a infância da pequena burguesia provinciana, depois vai para Paris. onde inicia os estudos de Direito, logo depois deixados de lado (mas os juristas, advogados, pululam na Comédie humaine). Aos 20 anos, rejeita todas as servidões e se proclama escritor. Bela audácia!
Do alto da mansarda onde ele vivia pobremente, pronuncia talvez a frase que seu personagem Rastignac lançará um dia diante de toda Paris: "A nous deux, maintenant!" Mas Paris não se inclina diante do jovem audacioso. Durante dez anos, Balzac escreve, sob pseudônimos, vários romances sem valor e peças teatrais sem condições de encenação. Seus únicos sucessos são as mulheres: Laure de Berny, 22 anos mais velha do que ele, será sua providência, depois a duquesa de Abrants, 15 anos mais velha. Amantes e mães ao mesmo tempo, estas duas mulheres irão ajudá-lo a atravessar o deserto até esse ano de 1829 em que apareceu Les Couans, detonador da Comédie humaine.
Inicialmente, Balzac não tem consciência de estar escrevendo La Comédie humaine. Escreve apenas romances que cada vez mudam de ambiente, de classe social, de intriga, de recursos psicológicos.
Apenas na metade de seu trabalho, em 1840, Balzac compreende que todos os seus romances se organizavam numa constelação, resplandeciam uns sobre os outros, construiam o mesmo monumento. Foi então que ele avaliou sua própria ambição, o passo prometeico de sua obra; E lhe deu o título de La Comédie humaine (inspirado por Dante - A Divina Comédia) A partir desse momento, começa a realizar um duplo trabalho: por uma parte, acrescentar muros e pedaços, uni-los uns aos outros, como escritor dos romances que virão completar o monumento. E, paralelamente, voltar atrás, modificar alguns personagens, mudar os nomes, de maneira que a grande "descoberta" de Balzac possa funcionar: a passagem ou transição de um romance para outro. Muitos personagens são alinhavados em outro, Vautrin, etc... Cada um dos livros se encaixa em vários outros. Vemos formar-se famílias cujos rebentos, ou descendentes, frequentam muitos outras obras.
Entre os milhares de personagens que se agitam na Comédie humaine, estreitam-se os laços de parentesco, de tal forma que - para esse escritor, obsessionado pela paternidade, pela "família" e pela "genealogia" que foi Balzac - sua obra constitua uma família prolífica e infinita, quer vivendo em Paris, quer no interior provinciano, quer nas classses baixas quer nas altas, e, para dar mais veracidade, são acrescentadas pessoas reais, tiradas da história recente - em primeiro lugar, o inevitável Napoleão.
Jamais um escritor esteve tão próximo de ser considerado um "demiurgo", um rival de Deus. Balzac é um dos romancistas de maior gênio. Nenhum escritor teve, como ele , a vontade de tornar-se uma espécie de Criador no sentido em que Deus é criador.
Isso explica porque este homem bom e compassivo, que todos descrevem como simples e modesto, está às vezes inebriado por um desvairado orgulho. Em 1844 ele escreveu à sua amante, Madame Hanska: "Quatro homens terão vivido uma vida imensa: Napoleão, Cuvier, OConnell e eu quero ser o quarto.
O primeiro viveu a vida da Europa. Estava ionoculado com os Exércitos.O segundo desposou o mundo. O terceiro se incarnou num povo. E eu terei levado uma sociedade inteira em minha cabeça". E ainda: "Você não imagina o que é a Comédie humaine: é mais vasta, literariamente falando, do que a catedral de Bourges arquitetonicamente."
A vontade violenta de Balzac, sua preocoupação em "teorizar"
em extravasar isua obra romanesca numa teoria social arriscava exaurir a espontaneidade, o inconsciente, desta criação. Apesar disso, ele não cai jamais nessa extravagância. Porque ? Sem dúvida, Balzac é um extraordinário observador da sociedade e também um grande "visionário", mas é um teórico ou douctrinário mesquinho.
Muito embora, apesar de suas doutrinas, sua obra se desenvolva caprichosamente e viole a todo instante os princípios sobre os quais pretende construí-la.
Um homem compreendeu maravilhosamente este combate, em Balzac, entre o Criador, o visionário, o poeta, por uma parte, e o teórico, por outra. Foi Marcel Proust: "O que salva Balzac é que ele só descobriu a unidade de sua obra através de uma iluminação retrospectiva. O que ele descobriu é uma unidade que se ignorava, uma unidade que era portanto vital e não lógica, uma unidade que não rejeitou a variedade e suavizou a execução."
Entretanto, se as teorias que Balzac enunciou tão pesadamente e sobre as quais quís aplicar sua obra de imaginação são muito enfadonhas, estas mesmas teorias são apaixonantes quando as decobrimos ocultas nas dobras e nos labirintos de seus romances. É por isso que La Comédie humanine pôde desempenhar um papel considerável nas ciências socieias, não em força dos longos discursos filosóficos, escritos por Balzac, mas pelos movimentos e emoções de seus personagens, suas paixões, suas vontades de dominação, de poder...
Mas, estranhamente, este Balzac, que depois de rápido interesse pelas idéias progressistas na época de sua juventude boêmia, voltou-se depois para posições conservadoras, legitimistas, e mesmo "ultra-conservadoras", é muito apreciado
não pelos teóricos de direita, mas, ao contrário, pelos teóricos de esquerda.
Para Balzac, só importavam "o trono e o altar". Ele rejeitava a idéia de "classe social", preferindo falar de "ordens", no sentido antigo e aristocrático da palavra"ordens", isto é, de uma sociedade imutável, projetada por Deus ou pelo Rei e que não deve mudar no decurso dos séculos. Ora, os personagens de Balzac não obedecem a este esquema fixista.
Eles se agitam, se sublevam, como pessoas arrebatadas de furor
em Le pre Goriot, Les illusions perdues, Eugénie Grandet, Le Curé de Campagne, Cesar Birotteau ou Le lys dans la vallée... São exatamente antípodas em relação à teoria de Balzac: revoltados, vagabundos, ambiciosos, pessoas repletas de energia, cuja única meta é exatamente subir nas classes sociais.
Não admira que os maiores admiradores de Balzac sejam paradoxalmente Karl Marx, e Friedrich Engels e, mais perto de nós, o grande marxista húngaro, Georg Lukacs.
E então? Balzac é o escritor realista e observador social da luta das classes? Com toda a certeza e de uma maneira imperecível. Mas, é preciso não esquecer um outro lado: o do Balzac visionário, fascinado pelas experiências supranormais, leitor de Swedenborg, apaixonado pelo iluminismo e pelas profecias, extraordinariamente sensível aos presságios e premonições.
O fim de sua vida o confirma. Estamos em 1850. Balzac, com apenas 50 anos, irá finalmente poder alcançar um sonho que acaricia há 18 anos, desde 1823. Nesse ano, o escritor era já tão famoso que recebeu uma carta, enviada desde Odessa, na Rússia, por uma dama da nobreza polonesa, Eve Hanska, que se assinou: "a estrangeira". Balzac fica subjugado. E ei-lo, uma vez mais, louco de paixão. Começa uma fantástica correspondência. A partir do ano seguinte, Balzac passa algumas semanas com Madame Hanska em Neuchatel, na Suíça.
Depois, volta a Paris e recomeça a amar outras mulheres, entre elas uma jovem Caroline Marbouty, que ele leva numa viagem á Itália, disfarçada de rapaz, para salvar as conveniências. (!). Mas a verdadeira amada continua sendo madame Hanska e, em 1850, finalmente, pôde casar-se com ela.
Parte então para Kiev onde se casa no dia 14 de março. O casal parte de volta a Paris, mas Balzac está muito cansado e a viagem se prolonga indefinidamente. Ambos só chegam em Paris no dia 21 de maio. Vão diretamente para um belo apartamento da Rue Fortunée que Balzac, com essa prodigalidade insensata que cobre toda a sua vida de dívidas monstruosas, mandou decorar suntuosamente.
O casal chega durante a noite. O apartamento, visto de fora, é encantado, porque todas as suas janelas estão iluminadas. Balzac e sua nova esposa sobem, sonhando com a felicidade. Tocam a campainha.
Ninguém responde. Forçam a porta: percebem então, escondido por trás de um móvel, o vigia que Balzac havia encarregado de preparar o apartmento. O pobre homem havia enlouquecido e vivia eternamente no meio de tochas acesas.
Balzac fica muito angustiado. Interpreta esta cena como um presságio fúnebre. Está esgotado e vai para a cama. Mas não se levantará mais. Em julho, os sofrimentos são terríveis. Em agosto, acontecem as crises de sufocação. No dia 18 de agosto, Victor Hugo vem visitar seu amigo.
Hugo, que logo depois pronunciará um magnífico elogio mortuário: "Seus livros inumeráveis constituíram um só livro." Os sofrimentos redobram. Balzac suplica que chamem por favor o doutor Ulysse Branchion, que salvou tantos personagens da Comédie humaine, mas o doutor Branchion não virá jamais.

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