São Paulo, 16 (AE) - Uma balsa virou e dois homens desapareceram hoje pela manhã nas águas do Rio Tietê, no município de Osasco, SP. Eles eram funcionários do consórcio formado pelas empresas Enterpa Engenharia e OAS, responsáveis pelo aprofundamento da calha do rio. Iam começar o dia de trabalho, quando, às 7h30, a balsa em que estavam bater em uma pedra ou num banco de areia e virou. Eles vinham contra a forte correnteza.
Até as 18 horas de hoje o Corpo de Bombeiros procurava os corpos do ajudante Médici Pereira dos Santos, de 25 anos, e do mecânico Manoel Domiciano de Oliveira, de 49. O operador de equipamentos Severino Gomes da Silva, de 25, nadou até a margem do rio e conseguiu escapar. Ele foi removido para o Hospital Amador Aguiar, em Osasco, passou por uma lavagem estomacal e depois teve alta.
Há controvérsia quanto ao número de pessoas que estavam na embarcação, usada segundo a Enterpa e a OAS, exclusivamente, para o transporte de funcionários. O boletim de ocorrência, registrado no 3.º DP de Osasco, diz que eram quatro pessoas - além de Santos, Oliveira e Silva, faz menção também a um funcionário identificado simplesmente por Neri, que levava o barco e conseguiu se salvar.
Já testemunhas do acidente garantem que eram sete homens. "Quatro ficaram segurando no barco, um saiu nadando e dois ficaram prensados e acabaram afundando", assegurou Antônio Gomes, que deixava seu trabalho na Minegoto Transportes e passava pela Ponte Rochdale bem no momento do acidente. "Todo mundo gritava socorro; os que se salvaram choravam por não conseguir socorrer os colegas."
Segundo Gomes, todos eles usavam coletes salva-vidas, o que não foi confirmado pelo Corpo de Bombeiros, já que o resgate foi feito inicialmente por gente da própria obra. O tenente Édson Itamar, responsável pelas buscas, disse que se estivessem usando o equipamento os homens teriam todas as chances de sair com vida. Ele desconfia que eles possam ter tirado os coletes por causa do forte calor. O trecho tem 5,5 metros de profundidade.
Ministério Público - O secretário de Estado de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras, Antônio Carlos Mendes Thame, esteve hoje no local do acidente e disse que a responsabilidade pelo fato é da OAS e da Enterpa. "Estamos preparando relatório para encaminhar ao Ministério Público para apurar os fatos", afirmou Thame. A Ponte Rochdale deveria ter sido demolida há um ano e meio para dar lugar a uma passarela.
O secretário mostrou uma cópia do contrato, onde consta que uma das normas exigidas pelo governo japonês, financiador da obra, é que as duas empresas devem "tomar as providências necessárias para evitar acidentes ou danos de qualquer espécie a seus operários e terceiros, se responsabilizando por danos que possam ocorrer".
Labieno Mendonça, diretor da Enterpa Engenharia, classificou o episódio de fatalidade. "Um funcionário pediu para que eles aguardassem o socorro", disse. Ele garantiu que os homens eram sempre orientados a usar os coletes e a balsa era usada apenas para o transporte do pessoal.
Manuel Pereira dos Santos, pai de Médici, contou que é comum funcionários caírem no rio, sem maiores consequências. Ele garantiu que o filho nunca reclamou das condições de trabalho e, conformado, atribuiu o acidente às "coisas da vida". "Não foi falta de cuidado", afirmou.
Seu filho mais velho morava no Grande Recife e veio para São Paulo em fevereiro. Pediu insistemente para que o pai - que trabalha na cozinha de uma firma fornecedora de refeições para os operários - conseguisse uma vaga para que pudesse fazer a vida por aqui. "Ele trabalhava no campo, com a terra; queria que eu arranjasse um emprego na água porque acreditava que se trabalha menos e se ganha mais."

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