O litoral do Paraná tem sido palco de um espetáculo raro e animador: o retorno cada vez mais frequente das baleias-jubarte. A cena que chamou atenção no fim de maio — uma baleia nadando tranquilamente nas águas próximas à obra da Ponte de Guaratuba — é mais do que uma curiosidade: é um sinal promissor da recuperação de uma espécie antes ameaçada.

O animal avistado integra uma população que migra anualmente da Antártica para águas tropicais brasileiras com objetivo reprodutivo, principalmente entre o Espírito Santo e a Bahia. A presença no Paraná revela que o estado faz parte dessa jornada migratória — e que esse tipo de ocorrência deve se tornar cada vez mais comum.

Esse aumento da população de jubartes vem acompanhado de desafios. A presença frequente das baleias em áreas costeiras aumenta o risco de colisões com embarcações, emalhamento em redes de pesca, exposição à poluição sonora e encalhes.

Em 2024, o litoral do Paraná registrou pelo menos dois encalhes de baleias-jubarte nessa mesma época do ano passado, uma em junho, quando uma jubarte morta foi localizada no balneário de Coroados, em Guaratuba e outra em julho, um macho juvenil de aproximadamente 7,6 metros foi encontrado sem vida no balneário de Praia de Leste, em Pontal do Paraná. Esses eventos ocorrem em um contexto de aumento significativo da população de jubartes no Brasil. Desde 1988, quando havia cerca de mil indivíduos, a população cresceu para aproximadamente 30 mil, graças à proibição da caça comercial e a esforços de conservação .

Para mitigar os riscos, o IAT (Instituto Água e Terra) e o Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR iniciaram, entre 26 de maio e 1º de junho de 2025, um programa de monitoramento intensivo das baleias no litoral paranaense que realizou um mapeamento aéreo da costa paranaense. A ação contou com apoio do Centro de Operações Aéreas (COA) e identificou, além de golfinhos e toninhas, pelo menos duas baleias-jubarte, incluindo um jovem-adulto com cerca de 12 metros de comprimento avistado na Baía das Laranjeiras, em Guaraqueçaba. O objetivo é mapear rotas migratórias, identificar áreas de reprodução e alimentação, e orientar políticas públicas e processos de licenciamento ambiental para proteger esses animais .

Uma baleia-jubarte, jovem-adulto com aproximadamente 12 metros de comprimento, nada da região de Guaraqueçaba
Uma baleia-jubarte, jovem-adulto com aproximadamente 12 metros de comprimento, nada da região de Guaraqueçaba | Foto: Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR

Monitoramento científico e impacto no licenciamento ambiental

A operação marca o início de um trabalho contínuo de pesquisa sobre a migração das baleias, com foco em identificação de padrões de presença, apoio a ações de educação ambiental, subsídio para licenciamento de empreendimentos que impactam o ambiente marinho. “Durante esses voos, catalogamos todos os animais avistados. Queremos aprender para conservar, garantindo o menor impacto possível sobre eles”, afirma Rafael Galvão, técnico ambiental do IAT. “Será uma presença constante no nosso litoral, e a população precisa entender como respeitar o espaço desses animais”.

Galvão reforça ainda que licenciamentos ambientais devem considerar a rota das baleias, já que intervenções na costa — como obras, dragagens ou atividades náuticas — podem afetar diretamente a vida marinha. “Precisamos de um mar compartilhado, que contemple múltiplos usos e respeite esses animais, que são essenciais para a produtividade do oceano”, defende o técnico.

Imagem de câmera do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR registra uma baleia-jubarte, jovem-adulto com aproximadamente 12 metros de comprimento, próximas à obra da Ponte de Guaratuba
Imagem de câmera do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR registra uma baleia-jubarte, jovem-adulto com aproximadamente 12 metros de comprimento, próximas à obra da Ponte de Guaratuba | Foto: Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR

Baleias em recuperação, mas ainda vulneráveis

A presença das jubartes no Paraná é um indicador da recuperação da espécie, que já esteve à beira da extinção. De acordo com a bióloga Camila Domit, pesquisadora do LEC-UFPR, esse comportamento representa uma nova fase da conservação marinha no Brasil. “Elas geralmente fazem rotas mais oceânicas. O fato de estarem se aproximando da costa indica uma recuperação populacional e também de saúde ambiental”, afirma.

Em 1988, a população de jubartes no Brasil era estimada em cerca de mil indivíduos. Hoje, são aproximadamente 30 mil, segundo o Projeto Baleia Jubarte — resultado direto da proibição da caça comercial.

Apesar dos avanços, a espécie ainda enfrenta riscos, como tráfego marítimo, pesca predatória, exploração mineral e grandes navegações. Por isso, a conscientização da população é parte fundamental do trabalho. “É um grande desafio: as áreas de uso dessas baleias agora se sobrepõem às áreas humanas. Precisamos educar para coexistir”, alerta Camila.

Conheça a jubarte: gigante dos mares

Imagem ilustrativa da imagem Baleia-jubarte é vista no litoral de Guaratuba, no Paraná
| Foto: Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR

A baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) pode medir até 16 metros de comprimento e pesar cerca de 40 toneladas. Suas características incluem:

1. Corpo de coloração escura;

2. Grandes nadadeiras peitorais brancas, que podem ter 1/3 do comprimento do corpo;

3. Cauda com padrões únicos em branco e preto.

4. Esses cetáceos formam grupos instáveis de dois a três indivíduos e alternam entre áreas de alimentação na Antártica (no verão) e reprodução no Brasil (inverno e primavera).

Um legado de conservação

O retorno das jubartes representa mais do que a recuperação de uma espécie: é um símbolo de que é possível equilibrar desenvolvimento e preservação ambiental. No Paraná, o fenômeno se conecta a avanços estruturais, a expansão de unidades de conservação e lançamento de livros e registros oficiais de fauna ameaçada; novos instrumentos como as RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) e créditos verdes. “Não é só proteger. É transformar o litoral em um espaço vivo de pesquisa, turismo sustentável e educação ambiental”, resume Rafael Andreguetto, diretor de Patrimônio Natural do IAT.

(As informações são da Agência Estadual de Notícias)

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