Balança e ritmo de gastos do governo são ameaça a meta inflacionária
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quinta-feira, 17 de junho de 1999
Por Gustavo Alves 
Rio, 18 (AE) - A fragilidade da balança de pagamentos e a tradição do governo, de gastar mais do que arrecada, são ameaças ao sucesso da política de metas de inflação, que o governo pretende adotar neste fim do mês, alertaram hoje os economistas Celso Martone e José Júlio Senna, da MCM Consultores Associados. Em seminário na Câmara Americana de Comércio, ambos elogiaram o sistema, que permitiria prever melhor o comportamento da economia. "Este ano precisamos de US$ 71 bilhões de financiamento bruto", lembrou Martone, para quem a situação da balança de pagamentos pode agravar crises econômicas provocadas por choques de oferta de produtos. Estes choques são causados por aumentos inesperados de produtos importantes, como combustíveis ou produtos agrícolas.
Martone avisou que o governo brasileiro tem "tradição deficitária" que, se for mantida, vai limitar a capacidade de o Banco Central (BC) alcançar as metas de inflação para este e os próximos dois anos, a serem fixadas pelo Ministério da Fazenda, como está previsto no novo sistema de metas. "Se a política fiscal estiver fora de linha com a de metas de inflação, o Banco Central vai segurar a brocha, mas o governo vai tirar a escada"
comparou.
Banda - Os dois economistas previram que a meta inflacionária estabelecida pelo Ministério da Fazenda será uma "banda", com diferença de três pontos percentuais entre o maior e o menor número, em vez de um número determinado. A adoção da banda foi recomendada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ao Banco Central, contou Senna. A medida vai permitir que continue a redução dos juros, explicou o economista
que foi diretor do BC. De acordo com os dois economistas, a meta vai ficar entre 6% e 9%.
Eles basearam a previsão pela estimativa da MCM de que a inflação fique em 7,3%, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice será o usado pelo governo para fixar a meta inflacionária e mede o custo de vida para famílias com renda entre um e 33 salários mínimos. Segundo Martone, em 2001 o governo deve trabalhar com meta entre 2% e 4%, próxima dos níveis internacionais.
Tranquilidade - A adoção do novo sistema, de acordo com Senna, vai tornar mais "tediosa" a política monetária, por permitir que se antecipe o comportamento da taxa de juros, tirando a expectativa das reuniões do Conselho Monetário da Política Monetária (Copom) do Banco Central. Para o economista, a estimativa poderá ser feita pelo acompanhamento do boletim trimestral que o BC vai passar a divulgar sobre a economia brasileira.
"Vai ser o documento mais importante para a economia brasileira", afirmou Senna. Outros dados a serem levados em conta são a variação dos juros cobrados em títulos pré-fixados com 12 meses do governo e conhecimento do mecanismo que o BC adotará para fatos imprevistos que possam influenciar o comportamento da inflação, como choques de preços.


