Balança agrícola com o Mercosul registra déficit
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Mariângela Heredia 
Brasília, 22 (AE) - A balança comercial agrícola do Brasil com os demais países do Mercosul registrou um déficit de US$ 2,7 bilhões no ano passado, com exportações de US$ 1,1 bilhão e importações de US$ 3,8 bilhões, de acordo com a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura. A maior parcela do déficit, cerca de US$ 2,3 bilhões, resultou do comércio bilateral com a Argentina, onde as importações brasileiras foram de US$ 2,8 bilhões e as exportações para o País atingiram apenas US$ 484 milhões.
Desde a formação do bloco a balança comercial agrícola brasileira vem registrando sucessivos déficits com os parceiros do Mercosul e essa situação deve continuar, apesar da desvalorização cambial, na avaliação de especialistas do setor agropecuário. "Vamos ter de continuar importando trigo e arroz dos argentinos porque é mais econômico", observa o chefe do departamento de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Donizeti Beraldo.
Ele avalia que os argentinos estão reclamando da desvalorização cambial brasileira por temerem uma invasão de produtos industriais, mas na área agrícola a tendência é de manutenção do mesmo nível de déficit dos anos anteriores. "Podemos importar um pouco menos de arroz e trigo em função do aumento da produção interna, mas isso não deve alterar a relação entre os países", acrescenta.
Para o ministro da Agricultura, Francisco Turra, o déficit da balança comercial agrícola com o Mercosul deverá diminuir após a desvalorização cambial. Ele avalia que produtos como os derivados lácteos e o alho, cuja produção nacional vinha sendo fortemente pressionada pelas importações da Argentina, deverão viver um novo cenário a partir de agora. "Chegou a hora de o nosso produtor também respirar".
O deputado Hugo Biehl (PPB-SC), ex-presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, avalia que o déficit da balança comercial agrícola demonstra a situação de dificuldade do produtor brasileiro em relação aos parceiros do Mercosul. Ele critica qualquer tentativa dos argentinos de insistir na fixação de cotas ou na adoção de tarifas para os produtos brasileiros após a desvalorização cambial, observando que isto seria o mesmo que "acabar com o Mercosul".
"O Brasil parece a mãe que adotou os filhinhos e, daqui a pouco, o filho adotado tem mais vantagens", comparou o deputado. Hugo Biehl considera que se o governo brasileiro tratar a Argentina com benevolência e mantiver os produtores rurais brasileiros "a pão e água", não faz sentido insistir no Mercosul. "Nos anos anteriores, os argentinos fizeram a festa no Brasil e ignoraram olimpicamente a situação de dificuldade do produtor brasileiro e, agora que a situação se inverte um pouco, eles não podem ser inflexíveis", concluiu.


