Baixam os ingressos do narcotráfico na Colômbia
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quinta-feira, 23 de dezembro de 1999
Por Frank Bajak, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Bogotá (AE-AP) - Em quase toda esta década, a economia colombiana esteve "drogada". A construção floresceu, a venda de automóveis novos aumentou e o país experimentou uma inundação de produtos importados. No norte de Bogotá, luxuosas lojas com pisos de mármore vendiam relógios Rolex por 500 dólares, sapatos italianos a 200 dólares e caminhonetes Land Rover a 90.000 dólares. Envoltos em trajes Armani, os membros da classe alta mostravam ostentosamente sua riqueza em banquetes e passeios na Europa. Inclusive os mais pobres se beneficiavam com a criação de postos de trabalho.
Agora, submersos na pior recessão em décadas e acossados por um crescente conflito armado interno, os colombianos sofrem o impacto de uma redução na repatriação dos ganhos do narcotráfico. Como resultado de tudo isso, os colombianos estão começando a ver até que ponto o negócio dos narcóticos distorceu a economia do país, e debilitou sua base agrícola e industrial. "A economia fictícia acabou", afirma Virgilio Correa, criador de gado leiteiro. "Estávamos vivendo como se fossemos um país rico, quando realmente somos um país pobre".
Grande parte do dano foi ocasionado por uma alta brusca das importações de artigos e produtos primários não submetidas a regulamentações, num tipo de transação utilizada pelos cartéis de droga para a lavagem de dinheiro. O contrabando cresceu até representar 25% das importações da Colômbia - cerca de 5.000 milhões de dólares - cuja proliferação foi estimulada por uma valorização exagerada do peso. Fanny Kertzman, chefe da oficial Direção de Impostos e Aduanas Nacionais durante os 14 meses que tem o governo do presidente Andrés Pastrana, disse que a irresistível força do contrabando destruiu dezenas de milhares de empregos e dizimou as indústrias de calçado e de couro, do licor e do tabaco. "Todos os produtores de eletrodomésticos locais quebraram", assegurou Kertzman.
Em 1984, a indústria do cigarro local abastecia 85% do mercado doméstico. Para 1995, essa proporção baixou para 30%, com menos de 10% do mercado composto de importações legais, indicou a funcionária. Para os licores foi pior. Cerca de 80% do mercado é composto por bebidas de contrabando, segundo a Associação Colombiana de Importadores de Licor. Nos últimos dois anos, oito firmas de importação de licores ficaram fora do negócio. Hoje em dia só sobraram duas.
Até 1997 o contrabando nem sequer era um delito na Colômbia. E antes do governo de Pastrana, nenhum presidente tentou deter esse fluxo. Intimamente vinculado ao tráfico de drogas, desde a bonança da marihuana na década de 70, o contrabando era visto como algo bom para a economia. "O contrabando não se limita aos bens de consumo, envolvendo também matérias-primas, alimentos", assegura Kertzman. Como exemplo disso ele menciona o leite em pó importado da Europa - que obrigou a rebaixar os preços locais do leite - as bananas, o milho e o arroz importados do Equador, a gasolina da Venezuela e outros artigos. E o florescimento do contrabando coincidiu com o surgimento deste país como primeiro produtor mundial de cocaína.
Durante o auge dos cartéis de Medellín e de Cali, a Colômbia passou de país exportador a país importador. A eliminação de barreiras comerciais durante o governo do então presidente César Gaviria (1990-1994), foi um catalisador chave. As importações legais e ilícitas se triplicaram desde 1989 até 1997
quando alcançaram 14,4 bilhões de dólares. Nesse mesmo ano o déficit comercial foi de 2.900 milhões de dólares. Obviamente, as contas não incluem os ganhos com as cerca de 500 toneladas de cocaína e as outras seis toneladas de heroína que a Colômbia exporta anualmente. Com amplas variações em seus cálculos, os economistas estimam que os narcóticos representam entre 3% e 15% do produto interno bruto de 90 bilhões de dólares do ano passado.
Ao começar a repatriar tais ganhos há quase duas décadas, os barões das drogas na Colômbia estimularam o setor de terras a proporções fantásticas. As "narcocompras" das melhores terras do país quadruplicaram e até quintuplicaram os preços em algumas regiões, na medida em que os traficantes adquiriram quase um terço dos 9 milhões de hectares dos pastos de primeira qualidade da Colômbia, segundo Alejandro Reyes, analista político da Universidade Nacional. As aquisições de ranchos provocaram o deslocamento de camponeses, afetaram a produção agrícola e estimularam o auge dos grupos paramilitares, responsáveis agora pela maioria dos assassinatos políticos do país, afirma Reyes, que estudou profundamente o fenômeno.
Os chefes da droga também realizaram fortes investimentos na construção. "Ao final dos anos 80 e começo dos 90 se viu um rápido crescimento. Era possível ver como a indústria da construção perdia os estribos. A vista mudou dramaticamente em Medellín, Cali e Bogotá", as principais cidades colombianas, disse Gregory Passic, especialista financeiro que trabalhou com a Direção Norte-americana Antidrogas e agora trabalha no Centro de Informação Nacional de Drogas. Quando a recessão afetou a economia no ano passado, o setor de bens de consumo desandou. "Hoje metade do país está a venda e não há quem compre", assegura Reyes.
Nos ricos e verdes prados que rodeiam Bogotá, pastos para gado leiteiro de primeira são vendidos por 15 milhões de pesos (7.500 dólares) o hectare, cerca de 37% abaixo do que custavam há dois anos, disse Correa, e nem sequer há compradores. Realmente o negócio leiteiro se tornou improdutivo e muitos fazendeiros o estão deixando, agrega. Em outras regiões, o desemprego de trabalhadores de fazendas fez com que os peões passassem a cultivar a coca. Inclusive antes de que o impacto combinado das crises econômicas da ásia e da Rússia no ano passado provocasse a saída de investidores internacionais dos mercados emergentes, incluindo a Colômbia, os traficantes já haviam começado a tirar seu dinheiro.
No princípio de 1995, uma operação policial com o respaldo dos Estados Unidos conseguiu o desmantelamento e a captura dos chefes do cartel de Cali e foram confiscadas terras e mansões. Para os narcotraficantes, investir em sua própria terra se fez mais perigoso do que nunca. Agentes antidrogas estimam que a terceira geração de narcotraficantes colombianos enviou desde então grande parte de seus ganhos para o Caribe e outros paraísos fiscais, onde as leis contra a lavagem de dinheiro são frouxas. "O que parece, nos últimos anos, é que aumentou muito a tendência de investir dinheiro no exterior...porque na Colômbia diminuiu substancialmente a corrente de ingressos do narcotráfico", assegura Reyes. E, no entanto, os narcotraficantes parecem não ser os únicos a tirar seus fundos da Colômbia.
A classe alta colombiana também dirige agora seus investimentos para o exterior, em um sinal de desconfiança da economia local, afirma Salomon Kalmanovitz, um dos diretores do Banco Central colombiano. Ele diz que seus compatriotas investiram 670 milhões de dólares no exterior desde janeiro e até agosto passado. Isso é o dobro da cifra registrada em todo 1998 e o triplo do montante do ano precedente. No mês passado, o governo de Pastrana conseguiu créditos de 6,9 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional e outras instituições financeiras, em recursos que o mandatário destinará a uma luta mais efetiva contra as guerrilhas e para reativar uma economia que se contraiu 6,7% no final do primeiro semestre de 1999. Necessitará investi-los sagazmente para poder resgatar a economia legítima da Colômbia.
Muitos analistas consideram que o governo de Pastrana, ao atacar o contrabando e os mecanismos de lavagem de narcodólares - que por muito tempo foram um dos pontos fortes da economia - só agravará a curto prazo os padecimentos financeiros da Colômbia. Passic, o ex-agente da DEA, afirma que reorientar a economia para a legalidade já provou ser traumático. Mas a alternativa é pior. "Quando em lugar de ser o governo ou a indústria são os narcotraficantes que decidem em que se investe o capital, a situação é realmente grave.


