Brasília, 02 (AE) - O cabelo endurece, a pele racha e o nariz sangra. Esses são alguns sintomas causados pela baixa umidade relativa do ar em Brasília que, associada a altas temperaturas, igualou o clima da cidade a um deserto. Não há expectativa de chuvas para os próximos dias. O clima está tão seco que o zoológico instalou uma sistema de chuva artificial, onde os animais tomam banho para se refrescar do calor e respirar um ar mais úmido.
Nem as autoridades que vivem em refrescantes gabinetes escaparam da secura e das altas temperaturas em Brasília, que chegam a 33º durante o dia. O presidente Fernando Henrique Cardoso reclamou ontem que está "muito seco" na cidade. O presidente teve de interromper várias vezes a entrevista exclusiva ao Grupo Estado porque precisava espirrar. "É essa seca", queixou-se. O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, tem recorrido frequentemente a lenços de papel para enxugar o rosto, antes das entrevistas. Periferia - Longe dos gabinetes do governo federal, a 20 quilômetros da Esplanada dos Ministérios, a dona de casa Marinélia Corrêa dos Santos, que mora na empoeirada cidade do Riacho Fundo II, disse que os seis filhos sofrem nesta época do ano com a baixa umidade relativa do ar, que chegou a 12% esta semana. O principal sintoma é o sangramento do nariz e a pele seca e rachada. "Quando o clima piora muito a escola libera os meninos", contou.
Outra dona de casa Natividade de Oliveira, que mora em um barraco com seis filhos, joga água no chão para tentar refrescar a frente da casa. Isalda Figueiredo conta que os quatro filhos apresentam dores de garganta e problemas de respiração. Nas cidades da periferia, o governo tentou amenizar o problema da secura e da poeira jogando água com caminhões pipa. Mas a água some na poeira em poucos minutos. Algumas donas de casa colocam bacias com água debaixo da cama e toalhas na janela, para aumentar a umidade nos quartos. Umidade - O meteorogista Mamedes Melo, que trabalha no Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explicou que a umidade relativa do ar abaixo de 30% já é considerada "crítica", causando "desconforto" ao ser humano. Em Brasília, as taxas de humidade relativa do ar mais baixas ficaram entre 12% e 20% esta semana. A umidade relativa do ar é, segundo Mamede, "a quantidade de vapor dágua no ar". A umidade ideal para o ser humano é entre 70% e 80%, que é o clima de Natal (RN).
Mas algumas autoridades médicas da cidade dizem que a seca não representa o pior período do ano em número de internações. A vice-diretora do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), Conceição Kawano, disse que as internações aumentaram 10% com a seca, principalmente de crianças com problemas de asma. "Em abril e maio as internações aumentaram 150% com a tiazinha", disse ela, fazendo referência à gripe que atingiu boa parte da população. Ela recomenda muito líquido para enfrentar a seca. "Os adultos que preferirem podem tomar até cerveja", sugere, para a alegria de muitos. Chuva - Enquanto a água não cai do céu, a saída no zoológico foi a criação da chuva artificial. Os veterinários e tratadores amarraram mangueiras furadas nos tetos dos viveiros e jaulas da maioria dos bichos, que passam boa parte do dia se divertindo sob os respingos. A brincadeira dos bichos custou caro ao zôo, que vem recebendo contas mensais de água de R$ 36 mil, em média.
Para aliviar os cofres da entidade, está sendo construído um poço artesiano com capacidade de 20 mil metros cúbicos de água por hora. A expectativa é que a conta mensal caia para R$ 1 mil. Outra iniciativa, segundo informou o zôo, foi criar rações balanceadas específicas para cada animal, na época da seca. No clima seco de Brasília, até camelo recebe ração balanceada.

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