Nova York, 24 (AE-DOW JONES) - O temor do impacto negativo de uma elevação da taxa de juros sobre as ações das companhias dos setores tecnológico e financeiro e uma recomendação de venda de ações de bancos, por causa de preocupações com os gastos que a solução do bug do milênio vão provocar, combinaram-se hoje (24) à tarde para provocar uma forte baixa no mercado acionário norte-americano, com reflexos para outras bolsas em todo o mundo.
O índice Dow Jones de 30 ações industriais da Bolsa de Nova York caiu 174,61 pontos e fechou em 10.654,67, com uma perda de 1,6% e arrastou consigo os mercados ainda abertos na América Latina, que já estavam em baixa por causa da pressão criada pelos rumores em torno do peso argentino.
O índice Nasdaq, por exemplo, que é composto por ações das empresas de tecnologia ou que operam primordialmente via Internet, como a Amazon.com, recuou 2,6%. Corporações como a IBM e o Citigroup registraram as piores perdas. Segundo analistas, a situação da Argentina teve pouca ou nenhuma influência no desabamento do mercado hoje em Wall Street. O principal fator por trás das ordens de venda no mercado norte-americano é a atitude de cautela que os investidores assumiram diante do viés de alta de juros que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) adotou na semana passada.
O Fed manteve os juros interbancários e a taxa de redesconto inalterados, mas indicou que está pronto a elevá-los para impedir o ressurgimento da inflação. No dia 14, o Departamento do Comércio assustou os mercados financeiros ao divulgar que o Índice de Preços ao Consumidor (Consumer Price Index, CPI) de abril havia registrado inflação de 0,7%, a maior alta mensal de preços em nove anos.
"Ações de crescimento rápido, como as do setor de tecnologia, tendem a ser as mais sensíveis a aumentos de juros", disse Charlie Crane, estrategista de mercado da Key Asset Management. O efeito instantâneo de alta que a nova orientação do Fed teve sobre a remuneração dos bônus referenciais de 30 anos do Tesouro afetou também a avaliação do mercado sobre o desempenho futuro das empresas financeiras e preparou o terreno para a recomendação do analista Michael Mayo, do CS First Boston, aconselhando os clientes a diminuir a proporção de ações de bancos em seus investimentos. "O risco de possuir ações de bancos não parece ser justificado pelo retorno", escreveu.
Segundo Mayo, embora as perspectivas de crescimento global e a tendência à consolidação no setor financeiro sejam notícias potencialmente positivas, elas são compensadas pelos riscos relacionados ao bug do milênio, à volatilidade do mercado de capitais e à qualidade de ativos das instituições financeiras.
Para Ken Ducey, da BT Brokerage, o baque de hoje do mercado pode marcar, senão o início de uma correção há muito esperada por vários analistas, pelo menos uma mudança para uma atitude mais cuidadosa, que reflete uma fase de adaptação às perspectivas de juros mais altos.
"O mercado ignorou praticamente tudo (de negativo) que apareceu no caminho até agora, mas essa reação pode ser mais duradoura", afirmou. De fato, uma série de indicadores econômicos esperados para esta semana deve manter o mercado nervoso quanto a uma alta de juros.
De acordo com as indicações preliminares, a maioria dos indicadores deve confirmar que a economia norte-americana continua a crescer num ritmo suficiente para alimentar a preocupação do Fed com a volta da inflação.
O efeito sobre os mercados da América Latina foi forte. A Bolsa de São Paulo fechou em queda de 4,9%, a maior baixa desde 14 de janeiro. As vendas dos investidores estrangeiros justificaram uma atuação forte das tesourarias de bancos e derrubaram os preços no mercado paulista.
Os títulos da dívida também foram bastante prejudicados: os C-bonds, principais papéis brasileiros, eram negociados no fim do dia a 61,375 centavos de dólar, queda de 1,80% em relação à véspera. Os FRBs, papéis argentinos mais negociados, encerraram o dia a 82,20 centavos de dólar, queda de 1,73%.

mockup