Bairro cresce e acolhe egressos de hospital
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domingo, 09 de fevereiro de 1997
Luiz Taques de Campo Grande (MS) 
Fotos: J.J. CajuModeloO hospital São Julião existe há 55 anos e dispões de 300 leitosAquino Dias Bezerra deixou Araguaiana, no Mato Grosso, aos 19 anos de idade para tentar a cura da hanseníase. Isso foi há quatro décadas. No bairro Nova Lima, em Campo Grande, onde se instalou para tratamento no hospital São Julião, viviam apenas duas famílias. Eram as de José Pinto e de Valeriano da Silva, lembra.
José Pinto mudou-se para Sonora, município na divisa dos dois Mato Grosso; Valeriano da Silva já é falecido. José Pinto era dono de uma venda, localizada no meio da mata. Alguns pacientes do hospital arriscavam-se em passar por uma pequena picada para ir até lá tomar pinga. Escondido, é lógico. Essa estradinha ficou conhecida entre nós como três tombos e nem precisa dizer por que, né?, explica.
Aquino Dias Bezerra curou-se da doença, mas não quis saber de voltar mais para a sua cidade Natal. Como ele, outros egressos do hospital São Julião preferiram fixar residência em Campo Grande mesmo.
Assim o Nova Lima começou a ser povoado. A maioria dos moradores do bairro é formada por egressos do hospital ou por parentes de ex-portadores de hanseníase. O São Julião existe há 55 anos e dispõe de 300 leitos.
Atualmente, Aquino Dias Bezerra, 59 anos, oito filhos, cinco netos, não é mais aquele anônimo morador que se refugiou na região para fugir do preconceito. Na última terça-feira, ele assumiu o cargo de presidente do Conselho Deliberativo da Associação de Moradores do Nova Lima. Aquino é um daqueles sujeitos resolutos que não se cansam de buscar a cidadania. No Nova Lima, ele está instalando o Morhan - Movimento de Reintegração de Pessoas Atingidas pela Hanseníase.
Afinal, o bairro agora conta com 10.503 habitantes, conforme o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Conta com gente como Hudson Augusto Comparti, 46 anos, mineiro de Galiléia, e Germano Nogueira, 62 anos, baiano de Vitória da Conquista. Pai de dois filhos, Hudson é divorciado - Germano fala que nunca quis constituir família.
O calor humano daqui é diferente, testemunha o mineiro Hudson. Parece que o bairro acolheu a gente como gente, acrescenta Francisco Chagas da Silva, 60 anos, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte. Vinte anos atrás, ele internou-se no hospital São Julião, recuperou-se da hanseníase, casou-se, teve seis filhos, separou-se, mas preferiu não abandonar o bairro Nova Lima.
Antigamente, os hospitais que atendiam aos hanseníanos funcionavam como asilos-colônias. Os pacientes eram internados compulsoriamente, permanecendo isolados como numa prisão. O nortista Francisco Chagas da Silva, por exemplo, passou 14 anos internado.
A lei do internamento compulsório vigorou até 1962. Mas só a partir da metade da década de 70, no entanto, é que a lei começou a ser colocada em prática. Francisco Chagas da Silva deixou o hospital São Julião em 1974. O hospital é considerado modelo no País. Portadores da hanseníase de diversos Estados procuram o São Julião para tratamento.
Sem ter para onde ir, muitos (como Anastácio Gonçalves Neto, 68 anos, de Poconé, Mato Grosso) permanecem no bairro. A hanseníase é uma doença transmissível e curável que ataca os nervos periféricos e a pele.
Como sempre foi chamada vulgarmente por lepra, a hanseníase trouxe trágicas consequências para os seus portadores. Discriminação, isolamento, preconceito, são alguns dos efeitos colaterais que os atingidos pela doença enfrentam.
Detectada e imediatamente após iniciado o tratamento, a doença deixa de ser contagiosa. O portador da hanseníase pode e deve tranquilamente continuar com as suas atividades normalmente. Foi com essa finalidade que surgiu a Sirpha - Sociedade de Integração e Reabilitação da Pessoa Humana.
Na quarta-feira passada, a Sirpha completou maioridade - foi fundada no dia cinco de fevereiro de 1976. A Sirpha é uma instituição não-governamental, sem fins lucrativos, que presta assistência social aos egressos do São Julião. É que após a alta hospitalar, muitos já perderam o vínculo com a família ou encontram dificuldades de integrar-se novamente à sociedade.
A meta da Sirpha é reabilitá-los para que tenham uma vida independente. Aquino Dias Ferreira trabalha há 20 anos na Sirpha. Hoje, a média de permanência do portador de hanseníase no hospital é de três meses. O restante do tratamento é feito em ambulatório.


