Baiano constrói casa com lixo e doação
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sábado, 29 de setembro de 2001
Agência Estado<br> De São Paulo 
As grades e o portão, usados, foi um ex-patrão que doou. De uma casa de bonecas, catada numa caçamba de rua, utilizou as vigas de peroba para fazer a janela-balcão, o que deu um charme especial à fachada. O madeirame do brinquedo ainda rendeu um american-bar para a sala, com uma cuba de metal para lavar os copos e a janela do banheiro do casal, em forma de ''capela''.
Foi catando no lixo coisas assim - e não desprezando ofertas de amigos - que Etevaldo Moreira, 39, baiano de Jacobina, ''cidade para as bandas de Feira de Santana'', construiu a sua casa. Em fase de acabamento, mora nela já há três anos, com Lucila, 37, sua mulher, e três filhos criados na Creche da Vila Morse (patrocinada pelo Colégio Santo Américo).
Caçula, como é chamado, sendo o mais novo entre 15 irmãos, é um homem polivalente. Motorista particular, marceneiro e violeiro, é um realista por natureza: ''Tenho pena das pessoas orgulhosas, que se ofendem em ganhar até uma camisa usada. Sempre trabalhei duro. Nunca me envergonhei em reaproveitar coisas jogadas fora.''
A história de Caçula é semelhante à de milhares de nordestinos que vieram conhecer São Paulo: ''Bebendo da água do Tietê, a gente acaba ficando.'' Embora uma frase dessas pareça absurda, ''é assim que nos expressamos lá na Bahia, com todo o carinho'', explica ele, feliz. De família sertaneja, veio da roça para cá aos 18 anos, chamado por um irmão que lhe arrumou um emprego, num lava-rápido. Outro irmão, lustrador de móveis, convidou-o depois para ser seu auxiliar. Esperto e dedicado, em cinco anos era marceneiro formado.
E não só do salário, mas dos bicos que sempre fez, acabou economizando o suficiente para alugar um galpãozinho, na Vila Sônia, e comprar suas primeiras máquinas. Montou marcenaria. Simpático e competente, os clientes foram chegando e a empresa cresceu: em três anos já empregava quatro marceneiros e mais alguns auxiliares.
Mas a vida que parecia um conto de fadas foi por água abaixo com o Plano Collor. Como todo mundo, em 1990, ficou sem dinheiro e os clientes se foram. Teve que fechar a empresa, vender as máquinas para pagar as dívidas, sobrando apenas um velho Corcel II. Um amigo, que era caseiro no bairro do Morumbi, arrumou-lhe um emprego de motorista particular: ''Era para ficar um mês, fiquei dez anos.'' Foi nessa época que Caçula começou a 'catar'. ''Trabalhava com uma Saveiro; dava para ir catando um monte de coisas pelo caminho, enquanto trabalhava'', conta.
Economizando sempre, vivia apertado, mas sabia que um dia compraria um terreno: ''Tinha que amealhar o material para construir minha casa'', raciocinava. Isso aconteceu em 1998. Comprou seu lote, na Vila Morse, perto da Avenida Francisco Morato, à prestação. Em quatro anos, pelo valor total de R$ 48 mil, termina de pagar no ano que vem. Com o material estocado, deu início à construção da casa, contando com a ajuda de um amigo engenheiro, que o orientou quanto às fundações e à laje; e de outros, pedreiros: ''Fazíamos um mutirão nos fins de semana, que sempre terminava com churrasco, cervejinha e boa música'', revela.
O casal, com a ajuda dos filhos, trabalha de domingo a domingo: ''A energia do Caçula é grande, mas sou eu quem tem os pés no chão'', diz Lucila. ''Mas ainda dá tempo de compor e tocar modas de viola'', rebate brincalhão. Como motorista particular, ganha R$ 1.000 de salário, e com os bicos de marceneiro, realiza um adicional de R$ 800. Recorda-se, como se fosse hoje, do primeiro objeto que salvou do lixo: ''Um vaso sanitário, que está no lavabo da área de serviço.''
O teto dessa área, bem como o grande portão, que separa a garagem do quintal, provêm de um carpete de madeira, ''catado numa caçamba no Real Parque''. Uma pia de mármore, destinada à futura edícola, veio das redondezas do Hospital Oswaldo Cruz. A prosaica caixinha amarela de correspondência, pendurada no
portão de entrada, foi presente de um cunhado, que ''catou num lixo aqui perto''.
E o que não é catado na casa de Caçula? ''Quase nada: comprei cimento, areia, piso, fiação elétrica, caixas de tomada e algumas pedras para preencher a laje''. Pensa em terminar a casa e a edícola, para viver de aluguel e ir morar no interior. ''Sei que a nossa aposentadoria é uma calamidade; quero garantir com esses aluguéis a mim e à minha família.'' Acredita que ''o brasileiro tem muita criatividade, faltando-lhe, apenas, oportunidades''.
De fato, sua pequena marcenaria, de ''fundo de quintal'', poderia já estar registrada como microempresa, não fosse tanta burocracia. ''Eu poderia estar faturando bem mais'', afirma, entristecido. Para quem está na pior, como ele mesmo já esteve um dia, aconselha ''a não desanimar e trabalhar muito, a única
forma de se alcançar algum objetivo''. Para tanto, cita um trecho de música sertaneja, da antiga dupla Duduca e Dalvan: ''O mundo não acaba aqui. O mundo ainda está de pé. Enquanto Deus me der a vida, levarei comigo esperança e fé.''


