''A diferença entre a droga e o veneno é a dose''. A frase citada pela médica Flávia Rossi, diretora médica do laboratório de microbiologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, retrata o grande desafio no que se refere aos antibióticos: o uso racional. Isto porque ao mesmo tempo que o medicamento pode significar a vitória sobre uma infecção, também pode trazer impacto na resistência de bactérias, e nos casos graves de infecção hospitalar.
O problema da resistência bacteriana, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é um dos mais graves do século 21. Isto porque com a globalização, as bactérias, assim como os vírus, ''viajam'' de um país para o outro, e se cada vez elas estiveram mais fortes, maior será a dificuldade de combatê-las. Tanto é que já foram registrados casos em que infecções extrapolaram os limites do ambiente hospitalar e foram encontrados em grupos específicos da comunidade, como prisões, times de futebol, zonas de guerra e creches.
A médica cita o caso da bactéria estafilococos aureos, resistente a medicamentos e até mais agressiva que a encontrada em ambiente hospitalar. A infecção causada por ela começa com uma lesão pequena na pele, mas pode evoluir rapidamento para o óbito. Ainda não há casos dessa infecção no Brasil, mas a bactéria já está presente na América Latina.
Por outro lado, apesar de perigosas, as bactérias também são fundamentais para o equilíbrio ecológico e para o funcionamento do organismo humano. A dificuldade, aponta a médica, é manter esse delicado equilíbrio. Um dos grandes problemas, explica Flávia, é que começamos a tomar antibióticos muito cedo, ainda na infância, na maioria das vezes desnecessariamente, e até mesmo sem saber, ingerindo, por exemplo, alimentos que têm resíduo de medicamentos de uso veterinário. O resultado, ao longo dos anos, é a resistência das bactérias, chegando a casos em que não há opção terapêutica.
Dentro do hospital, o problema fica mais grave porque os pacientes estão mais debilitados e mais abertos a infecções. Além disso, os próprios procedimentos ficaram mais complexos, como os transplantes, e muitas vezes, mais invasivos, o que propicia mais casos de infecção hospitalar, principalmente nas unidades de terapia intensiva (UTIs). Por isso, explica o médico Jacyr Pasternak, presidente do departamento de controle de infecção hospitalar dos hospitais Albert Einstein e Beneficência Portuguesa, em São Paulo, ''onde há pacientes mais graves, há mais casos de infecção''.
Porcentagens baixas de infecção hospitalar usadas como elementos de marketing dos hospitais podem não significar muita coisa - alerta o médico Eduardo Medeiros, coordenador do comitê de infecção hospitalar da Sociedade Brasileira de Infectologia. Isto porque o índice depende do tipo de paciente atendido - nas UTIs os índices de infecção podem chegar a 20% e em uma maternidade a menos de 1%. ''Por isso um dos principais parâmetros são as comissões de controle de infecção hospitalar muito bem estruturadas'', afirma.
Escolher a melhor droga para combater as bactérias não é simples. Primeiro, porque a oferta de medicamentos é pequena e não dá conta de todas as infecções. Segundo, porque é preciso pensar que qualquer droga pode contribuir para a resistência das bactérias. ''Em cada situação é preciso pesar cada variável'', pondera Flávia. O assunto foi discutido no final de julho, em São Paulo, durante o workshop ''Tudo o que você precisa saber sobre Infecção Hospitalar'', promovido pela indústria farmacêutica Wyeth Farma.

A jornalista viajou à São Paulo a convite da Wyeth Farma

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