São Paulo, 15 (AE) - O governo brasileiro precisa adotar uma atitude mais prudente em relação aos capitais de curto prazo que estão entrando no País para aproveitar as altas taxas de juros. O alerta foi feito hoje pelo consultor sênior do Banco BBA Creditanstalt, Edmar Bacha. "O País não pode acumular reservas com base neste capital de curto prazo", disse ele. "É um erro o Banco Central intervir no mercado para comprar estes dólares porque é o tipo de dinheiro que o País não quer", observou.
"Essa bobagem já foi feita, chegamos a ter reservas de R$ 74 bilhões que evaporaram do dia para a noite", lembrou, referindo-se ao início do ano passado. O Brasil, ponderou, possui dois caminhos para impedir que ocorra esse acúmulo indesejável de reservas: baixar os juros mais rapidamente ou voltar a taxar o ingresso destes recursos com Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2%. As duas medidas, observa, reduziriam o ganho destes capitais, desestimulando seu ingresso.
Ele aposta mais na primeira alternativa. Na sua avaliação, as taxas de juros básicas da economia - reduzidas na quarta feira de 39,5% ao ano para 34% ao ano - devem cair ainda mais a partir de 1º de maio. Nas estimativas do BBA, a taxa de juros estará em 27% ao ano no fim do primeiro semestre e chegará a 17% no fim do ano. "Descontando a inflação, essa taxa representará juros reais entre 10% e 12% ao ano, que ainda é um nível alto, porém bastante inferior à taxa de 20% a 25% que marcou todo o Plano Real", calculou.
Bacha diz que não há excesso de otimismo na economia. "Antes, o mercado foi tomado por um excesso de pessimismo sobre o Brasil", disse ele, lembrando que o Brasil foi comparado à Rússia, o Congresso brasileiro foi considerado igual à Duma (o parlamento russo) e a equipe econômica foi classificada como "não influente". Para o economista, a apreciação rápida do real em relação ao dólar "é muito bem vinda". Ele diz que ficaria preocupado se a taxa caísse para R$ 1,55. Nas suas projeções, o valor do dólar vai cair até R$ 1,60 e ficar próximo deste nível, para voltar a subir no último trimestre do ano para encerrar em R$ 1,65.
O BBA, informou, está revisando a projeção que mantém para o tamanho da recessão de 1999. A estimativa de queda de 3 1% (calculada após a desvalorização) deve dar lugar a um número próximo a 2,5% de retração.
Colheita recorde e perspectiva de investimentos mais acentuados nos setores recentemente privatizados vão fazer a diferença, explicou Bacha. A indústria, ponderou, corresponde hoje a apenas 25% do PIB, por isso não o nível de atividade industrial é menos relevante do que o setor de serviços (que é 65% do PIB).
Bacha não teme que a queda dos juros provoque aquecimento da economia e que esta retomada abra espaço para aumentos de preços. O BBA projeta crescimento de 0,9% no último trimestre de 1999 em relação ao mesmo período de 1998. "Não é só a recessão que está provocando uma inflação menor que a esperada", avaliou. Ele diz que "a lógica de formação de preços no País mudou e as pessoas estão desconsiderando essa nova realidade". "Mesmo com a recuperação da economia a inflação não vai voltar, desde que o governo mantenha a economia aberta e não ceda às pressões protecionistas", disse ele.
O consultor do BBA espera que o governo faça, "ainda esta semana", uma emissão de papéis no exterior. Ele estima que o valor do lançamento fique próximo a US$ 1,5 bilhão e, se o custo ficar em 650 pontos para um prazo de cinco anos, "estará danado de bom". Segundo ele, "o mercado está salivando por esse bônus".
Bacha não espera uma agenda lotada no Congresso Nacional. O importante, este ano, é aprovar a prorrogação do Fundo de Estabilização Fiscal (FEF), cuja vigência encerra este ano e que será importante para os resultados fiscais do ano 2000. "A minha preocupação é menor com a busca de um ajuste fiscal de maior qualidade - porque o governo está trabalhabndo nisso - do que o caminho oposto, de tocar o pau na máquina", ponderou, referindo-se a uma agenda lotada demais e, por isso, pouco produtiva.
Ele sugere que o governo concentre-se em fortalecer o grau de concorrência da economia brasileira, acelerando privatizações, desregulamentando a economia e montando agências reguladoras eficientes e que impeçam que o monopólio público seja substituído por um monopólio privado.

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