Imagem ilustrativa da imagem Avenida Paraná
| Foto: Shutterstock


A mãe que pede socorro

Doutor, me ajude. De uns tempos para cá, meu filho está muito estranho. Anda em más companhias, todo dia chega tarde em casa, vive de olhos vermelhos e, nas poucas vezes em que fala com a gente, é para brigar com o pai. O homem que até anos atrás era seu ídolo virou seu pior inimigo. Outro dia quase se pegaram na hora do Jornal Nacional, por causa de uma notícia sobre a Lava Jato.

Dentro de casa, ele nem sequer participa das refeições. Pede para deixar o prato feito para ele esquentar no micro-ondas depois. Come no quarto, diante do computador. Quando está em casa, não sai daquele computador. Não sei quem com ele conversa por ali, mas boa coisa eu sei que não é. Intuição de mãe, sabe, doutor?

Pelo amor de Deus, doutor, me dê uma luz. Quero de volta aquele menino que me recebia com beijos e abraços quando eu voltava do trabalho. Que ia assistir aos jogos do Londrina com o pai no Estádio do Café, com boné de tubarãozinho. Que ficou tão feliz quando aprendeu a andar de bicicleta. "Olha, mãe! Sem as mãos!"

Quero meu filho de volta, doutor! Antigamente ele pedia para a gente nunca deixar a porta do quarto dele fechada, pois tinha medo de escuro. Agora, a mesma porta está sempre trancada a chave, e ele fica lá dentro, na penumbra; a única luz é a luz da tela do computador. A verdadeira família dele passou a ser a rede social — e o partido, aquele maldito partido que tanto mal já fez para todo mundo. Será que ele não entende, doutor?

Será que ele não entende que os inimigos de verdade são esses malditos corruptos e não o pai dele, um homem trabalhador, sincero, bondoso?

Até alguns meses atrás, eu me angustiava quando sabia das suas faltas na escola. Queria muito que ele voltasse à sala de aula. Agora, depois dessas tais ocupações, eu já não sei mais o que pensar. Ele voltou para a escola, mas não para estudar. Voltou para badernar, para fazer politicagem, para repetir como um papagaio as frases que um professor grevista vive falando pelo WhatsApp. Antes, ele faltava na escola. Agora, falta escola.
Outro dia, perguntei se ele usa drogas. A resposta foi desconcertante:

— Drogas não, mãe. Só maconha.


Me ajude, doutor. Meu filho não chora mais quando é contrariado. Agora diz que é "opressão". Quando o pai lhe negou um aumento de mesada, para ele não comprar mais maconha, disse que era por causa da PEC 241. E grita fora-temer, garante que está fazendo a revolução. Outro dia falou:

— Quando o Partido voltar ao poder, vou denunciar vocês dois como opressores, capitalistas, exploradores, golpistas e fascistas. Aí eu quero ver!

Doutor, acho que entendi o que está acontecendo. Como o tal "Partido" não consegue mais enganar os adultos, restou apelar às crianças. Por isso resolveram aliciar meu filho. Sinceramente, eu já nem sei mais qual droga é pior: a maconha ou o fora-temer.

Fale com o colunista: [email protected]

mockup