O dia depois da Ressurreição
Meu tio Armindo não trabalhava na segunda-feira depois da Páscoa. Quando iam chamá-lo, ele dizia:

— Hoje não. Hoje é Pascoela.

Morreu muito novo, tio Armindo. Apesar de folgar na segunda-feira de Páscoa, era um trabalhador incansável. Certo dia, foi trocar uma lâmpada, caiu da escada, bateu a cabeça e não resistiu. Foi uma dor imensa para a família, especialmente para meus bisavós, Pai Costa e Mãe Mulata. Esse tio morreu anos antes do meu nascimento; não o conheci, mas em todas as segundas-feiras depois da Páscoa eu me lembro dele. Posso quase ouvir a sua voz. "Hoje é Pascoela."

A frase do tio Armindo, aparentemente só uma ingênua anedota familiar, contém uma verdade valiosa. Se a Ressurreição é o centro da nossa fé, a Pascoela simboliza a nossa vida iluminada e guiada por esse acontecimento. Alguém já disse que o mais importante da liberdade é o que fazemos com ela; podemos dizer o mesmo acerca da Ressurreição. O que você vai fazer com a sua Páscoa?

Para mim, é intolerável imaginar a vida sem a Ressurreição. Uma das coisas que mais me fazem sofrer é a indiferença em relação ao maior milagre de todos os tempos, manifestada claramente por grande parte da minha geração. Entre nós, filhos da ditadura, muitos se recusam a ver significado no Tríduo Pascal, levando uma vida aprisionada no materialismo e na falta de transcendência. Alguns não resistem à falta de sentido e acabam por morrer muito cedo. Rezo por eles; peço que vocês, meus sete leitores, rezem também. Pobres daqueles que não têm Páscoa nem Pascoela!

Hoje é o dia depois da Ressurreição. A palavra Ressurreição quer dizer literalmente "erguer-se outra vez". Acaso não é isso que fazemos todas as manhãs, apesar de todos os problemas? É tempo de ressuscitar para a verdade, para a beleza, para a bondade — e para o que existe de comum entre elas. Hoje é Pascoela, e não vamos deixar de trabalhar por causa disso. Ao contrário, vamos dedicar um esforço e um empenho cada vez maiores à realização das pequenas coisas, para que as coisas grandiosas possam vicejar.

Ontem eu conversava com um amigo e ele se queixou de que o Brasil está sem luz no fim do túnel. Tem sido uma impressão muito disseminada ultimamente. Mas será que não estamos apenas vivendo aquelas horas de trevas que os Apóstolos viveram após a crucificação? Quando os nazistas pareciam prestes a ganhar a guerra, quando a Ucrânia perdeu milhões de filhos no Holodomor, quando os comunistas pareciam ter dominado o Leste Europeu para sempre, muitos perderam completamente as esperanças. Quando a geada dizimou milhões de cafezais em uma noite fria, em 1975, outros tantos acreditaram que era melhor desistir da vida. No entanto, as pessoas conseguiram se erguer de novo, porque a vida é uma Páscoa permanente.

Um dia eu vou encontrar pessoalmente meu tio Armindo e dizer a ele:

— Feliz Páscoa! Feliz Pascoela!

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